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Adeus, Maestro!

Não é fácil perder um ídolo. Difícil de acreditar, mas Andre Matos morreu aos 47 anos neste sábado e nos fez querer imaginar que era apenas mais um daqueles boatos que não se concretizam. Desta vez, nada de fake news, de boato, o maior cantor de rock do Brasil e um dos maiores do mundo partiu mesmo deste mundo.

Looking Back

A obra deixada por Andre Matos é riquíssima, a ser apreciada de cada momento da carreira, cada disco, cada composição tem um valor inestimável e a sua voz era única, ninguém conseguiu e ninguém vai conseguir imitar ou chegar perto de seu nível.

Como brasileiro, é uma pena ver que o seu reconhecimento no país é muito de nicho e até mesmo sua morte repercute muito menos fora de nossa bolha do rock e metal do que a de artistas com história irrelevante e obras aquém da qualidade apresentada por Matos.

Don’t Let Me Go

Eu conheci o Angra logo após a saída de Matos, Ricardo Confessori e Luis Mariutti. Assim, não tive a oportunidade de ver a formação clássica no palco ao vivo, embora tenha ouvido de cabo a rabo os discos Angels Cry, Holy Land e Fireworks, além dos EPs e todos os bootlegs possíveis que vazaram por aí.

E aí fui conhecer o Viper e também o Virgo – projeto de Matos com Sascha Paeth. Veio então um momento complicado da minha vida durante a adolescência. Problemas, solidão, distância de amigos e tudo novo. Foi então que comecei tentar aprender música em um violão bem simples – e veio a música do Shaman, que foi parar numa novela, uma coisa impensável para uma banda brasileira de metal.

Here I Am

Posso dizer de coração hoje que foram as músicas de Angra e Shaman que me trouxeram até aqui, que me fizeram pensar, imaginar, sonhar. As melodias e as letras me traziam conforto quando eu precisava, me davam ideias, me faziam querer escrever.

A voz de Andre Matos me fez querer cantar, até então eu tinha vergonha da minha voz e não queria ser ouvido nem cantarolando.

Nightmares

Fracassei feio no sonho de ser músico. Devo ter muita coisa escrita ainda, guardada sei lá onde. Mas se aquilo não me tornou músico, me fez um cara melhor, me fez pensar, construir frases, construir textos, contar histórias e muitas coisas que hoje uso de outra forma.

Já escrevi sobre a perda de outros músicos que admirava, contei sua história, contei os discos, as bandas, mas desta vez a coisa é mais pessoal. Tenho aprendido muito com as perdas em minha vida e percebo que isso nos muda a cada momento.

Você vai ler bastante sobre a carreira do Andre Matos no Angra e no Shaman por aí. Mas lembre que a obra dele é muito maior, com o Viper, com seus discos solo que se ouvidos com cuidado serão muito bem apreciados. Daquelas ironias da vida, essa semana o algoritmo das minhas playlists me soltou a música “Don’t Let me Go”, do Symfonia, que muitos nem conhecem, mas era um dream team do metal melódico com Andre Matos e Timo Tolkki (ex-Stratovarius).

Silence and Distance

E como é a vida. Eu era muito novo para ver o Viper ao vivo com o Andre Matos no vocal, até que eles fizeram uma reunião em 2012 e eu pude ver. Eu tinha pego apenas um show do Shaman em seu auge e no ano passado fui ao show que marcou o retorno. Faltou o Angra, que o próprio Andre já não vinha mais descartando com a ênfase de outrora. E ficou faltando, infelizmente.

Mas se toda perda deixa alguma coisa boa, a partida do Andre mostrou a cena heavy metal brasileira unida no luto, mesmo quem não era amigo dele se manifestou, todos sentiram sua morte. Espero que a cena passe a se unir daqui pra frente sem que seja na dor.

Who Wants to Live Forever
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O ‘modo USP’ de Edu Falaschi e o contra-ataque do Metal

O desabafo de Edu Falaschi sobre a cena atual do Heavy Metal no Brasil teve grande repercussão entre fãs e músicos, mas curiosamente não foram muitos os que concordaram com o líder do Almah e (provável futuro ex) vocalista do Angra.

Como você pode conferir no post anterior, Edu não teve papas na língua para reclamar do que chama de morte do Metal brasileiro e abusou, exagerou no baixo calão chegando a jogar contra o seu próprio público e extrapolou ao declarar a “morte do Heavy Metal brasileiro”. Para este blog, foi um tapa na cara muito bem dado do público atual, que realmente não é tão fiel ao gênero quanto se diz e se acha, mas feito da pior forma possível, não à toa usei o termo “deselegante”.

Que entendam onde quero chegar, mas comparo o que Falaschi fez ao protesto recente dos estudantes da USP, em que a bagunça transformou os invasores da reitoria em vilões para a população e a mídia, provavelmente deixando de lado o que motivou tudo aquilo. Edu perdeu a linha e deu brecha a quem o quis rebater.

O desempenho ruim do vocalista em suas últimas apresentações também pesam contra, principalmente após o show com o Angra no Rock in Rio. Prestes a passar por uma cirurgia para resolver um refluxo que lhe atrapalha há anos, Edu acumula mais uma polêmica para sua lista após deixar em aberto a permanência no Angra, reclamar do Metal Melódico (que é decadente não apenas no Brasil) e viver rebatendo as críticas de seus fãs recém-saídos das fraldas.

Achei bem curioso o público juvenil do Heavy Metal se sentir vítima das palavras do músico e acreditar que não tem nenhuma culpa pelo estilo musical que gosta estar vivendo uma fase das piores por aqui, quando todos os envolvidos têm culpa.

Não sei se por respeito aos fãs, demagogia ou simplesmente pela própria opinião mesmo, mas não vi músicos defenderem o líder do Almah, pelo contrário. Kiko Loureiro, guitarrista do Angra, fez questão de avisar aos fãs que aquilo não era a opinião da banda e sim do Edu.

“Discordo, ainda mais da forma que foi dita. Foi declaração dele e não do Angra. Por favor separem as coisas”, escreveu Kiko Loureiro no Twitter.

No Heavy Nation desta sexta-feira, no UOL, você pode conferir a opinião de Aquiles Priester e Nando Mello, do Hangar. Ex-parceiro de Edu Falaschi no Angra, o baterista também revelou não concordar com a declaração. Da mesma forma agiu o baixista do Shaman, Fernando Quesada em texto muito bem escrito que foi publicado no site Whiplash, que tem bons argumentos e deixa claro que temos um bom tema para discussão.

Claro que discordo em algumas coisas, como muitos discordam do que leram aqui. Mas a partir do momento em que há a discordância, há um tema sendo debatido e isso é bom para o Heavy Metal. Não de forma brusca e mal educada, mas inteligente. Não “matando” o gênero, mas buscando alternativas para fazê-lo voltar a respirar sem o tubo.

Com tudo isso, a melhor coisa a se fazer quando o público é pequeno só pode ser valorizar os poucos merecedores disso, como faz muito bem neste Stand Up Metal Comedy o ex-Angra Andre Matos, vocalista da banda Symfonia, que recentemente tocou para casas esvaziadas e tirou de letra.