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O xará

Crédito: Furtada do Twitter do Rubinho

Quando eu tinha 4 anos chorei para ter um carrinho de Fórmula 1 para brincar. Eu era fanático pelas corridas e por Ayrton Senna, aquele que quando não completava uma corrida eu via meu irmão mais velho ter o humor alterado e fazer ”homenagens’ aos Nakajimas da vida.

Enfim, aos 6 anos eu sabia ler perfeitamente e guardava as revistas de Fórmula 1 que meu pai trazia, além de ouvir seus relatos das corridas em Jacarepaguá e Interlagos. E lembro perfeitamente de quando peguei um anuário com vários nomes que já nem lembro e lá naquelas páginas tinha o perfil de um brasileiro que tinha o meu nome.

E talvez tenha sido por compartilhar o nome Rubens com um tal de Barrichello que eu jamais deixei de acompanhar as corridas mesmo depois da morte de Ayrton Senna, diferentemente do meu irmão e do meu pai, que continuaram gostando da F-1, mas sem ficar acordando na madrugada ou deixar o que tinha a fazer para ver uma corrida.

Com todo o público, também aprendi a me decepcionar quando esperava aquele pódio do Rubinho e via a nuvem de fumaça sobre o motor da Jordan ou da Stewart. O dia da primeira vitória dele está na minha memória, intacto. Foi uma corrida monstruosa, daquelas de se contar  nos dedos, de se contar aos netos.

Mas eu cresci, quis o destino (e quis mesmo, pois quem me conhece sabe que eu cheguei muito perto de desistir) que eu virasse jornalista esportivo. Em 2007 tive o contato com a Fórmula 1, aquele mundo dos sonhos da infância, conheci os carros, pisei o asfalto de Interlagos e entrevistei pilotos. Um dos pilotos era Rubens Barrichello, aquele…

Ainda iniciando a carreira, não sabia como era a personalidade do piloto e achei que ele aceitaria na boa uma brincadeira. Como ele não havia somado nenhum ponto com aquele lixo móvel da Honda e o Corinthians, seu time de coração, estava à beira da queda para a Série B, me arrisquei a uma brincadeira na última pergunta da entrevista feita quase toda por Rafael Valesi, enquanto eu filmava e fazia uma ou outra pergunta. “Comparando o seu momento sem somar nenhum ponto na temporada pela primeira vez e o time do Corinthians, dá pra comemorar que na F-1 não tem rebaixamento?”, perguntei. Óbvio que ele não gostou da brincadeira, mas respondeu do jeito dele, sem responder.

Enquanto eu ainda guardava câmera e tripé (estagiário do Lance! era um faz tudo na época – aliás, acho que ainda deve ser assim), Rubinho chamou seu assessor Anderson Marsili e reclamou, não gostou daquelas piadinhas e eu, mesmo sem querer, ouvi tudo aquilo enquanto estava abaixado guardando tudo. Minutos depois, o próprio Rubinho começou a fazer piadas na entrevista coletiva, inclusive se comparando ao Corinthians.

Depois disso vi o seu quase fim de carreira em 2008, o acompanhei empunhando um gravador naquela que poderia ter sido sua última entrevista com o macacão de uma equipe após deixar o carro da Honda e caminhar pelo paddock sem nenhuma garantia da escuderia japonesa. Ainda tenho a gravação, com ele lamentando por não ter conseguido ajudar Felipe Massa a conquistar o título mundial por não ter um carro decente.

Naquele momento recuperei o respeito pelo piloto que errou muito em atitudes e declarações na carreira e que muitas vezes foi injustiçado por um público que só gosta de esporte se tiver um brasileirinho ganhando (UFC que o diga). Torci por ele na disputa do título de 2009, quando Jenson Button ganhou merecidamente. E imaginei que na minha única corrida acompanhada profissionalmente de uma arquibancada (o que prefiro não explicar aqui), ele faria sua despedida. Mas ele não quis festa, preferiu acreditar na permanência e mais uma vez perdeu a chance de ser mais valorizado.

Nesta terça-feira foi dele o anúncio de que havia perdido a vaga na Williams para Bruno Senna. Claro que em termos de história no automobilismo, seus 19 anos na Fórmula 1 já renderam muitos capítulos, mas ele queria completar 20 e isso dá um certo ar de frustração. Aquela mesma que tocou muitos torcedores que achavam que ele seria “o novo Senna”, aqueles mesmos que esperam pelo “novo Pelé” e pelo “novo Guga”.

Ok, você pode ter sentido falta de música neste post de um blog em que prometi colocar sempre algo musical. Pois Rubens Barrichello tem sim algo musical para acrescentar, já que foi ator por alguns instantes no videoclipe da música “Adjustable”, do cantor John Kip, um brasileiro que canta músicas em inglês.

Imortais

Música e velocidade muitas vezes estão interligados. Quando não é a música que dá a você aquela vontade de acelerar contra o vento, é própria corrida que causa o momento de ouvir um som agradável, de preferência, veloz.

O barulho de uma guitarra vez ou outra se assemelha ao de um motor de carro, uma moto, ou qualquer coisa que se mova ferozmente. Como pode ser comprovado no vídeo abaixo em que pude ver e ouvir ao vivo no ano passado durante o prêmio Capacete de Ouro o guitarrista Kiko Loureiro fazendo na guitarra uma volta de Rubens Barrichello no circuito de Spa-Francorchamps da Fórmula 1.

Criei este blog para escrever sobre música e acho que as homenagens após mortes geralmente soam piegas. Mas quando uma sequência de fatalidades marca algo que gosto, fica difícil não encarar a pieguice.

Nos últimos dois domingos morreram dois pilotos notáveis. Primeiro o inglês Dan Wheldon em Las Vegas pela Indy e depois o italiano Marco Simoncelli pela MotoGP. Sim, muitos outros pilotos já morreram e isso fascina no esporte a motor: encarar o medo e se arriscar em uma atividade em que você sabe que um erro pode ser fatal, embora muitos se esqueçam quando há um longo período sem fatalidades.

Morrer fazendo o que mais gosta é muito digno e comove. Não há como ser diferente. É claro que ninguém quer morrer, mas todos morrem seja nas pistas, em casa, na padaria, no avião, no hospital ou qualquer outro lugar e hora determinada.

Lembrando disso e ouvindo pela enésima vez uma canção de David Coverdale chamada “The Last Note of Freedom” no caminho para casa senti vontade de escrever e relembrar a origem da música.

Em 1990 um filme chamado “Days of Thunder” (em português, “Dias de Trovão”) ganhou as telas pelo mundo tendo no elenco Tom Cruise, Nicole Kidman e Robert Duvall. A história era sobre um piloto da Nascar que era abusado, arrojado se arriscava e depois de muita encrenca chegava ao título da categoria recheada de acidentes nos ovais.

A trilha sonora para o filme também foi especial. Composta por David Coverdale em parceria com Billy Idol e Hans Zimmer. A interpretação de Coverdale é poderosa e única. O tema da música é simples: amor pela velocidade. Bom, eu era criança quando ouvi pela primeira vez o tema e ainda hoje não me canso de escutar.

Medo de morrer todos temos, mas quando ignoramos e encaramos este “inimigo” nos tornamos mais dignos. Como Wheldon, Simoncelli, Ayton Senna, Greg Moore, Dale Earnhardt, Gilles Villeneuve, Roland Ratzenberger, Henry Surtees, Gustavo Sondermann, Rafael Sperafico e tantos outros heróis das pistas.