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O Papa do mau

Após uma semana em que o assunto foi o Papa Francisco, que deixou uma ótima impressão em sua passagem pelo Brasil e também causou (não por sua culpa) uma saturação na cobertura midiática, resolvi tirar da gaveta um post que já venho pensando e preparando há algumas semanas e nele consta um Papa, mas não é assim o “santo padre”. Pois no mundo da música existe um papa do mal, seu nome é Papa Emeritus II e a sua igreja é uma banda chamada Ghost B.C.

Assim como Francisco, o Papa Emeritus II fará sua primeira viagem ao Brasil neste ano de 2013 e visitará as cidades de São Paulo e Curitiba, mas o seu grande momento será no Rio de Janeiro, durante o Rock in Rio, em que acompanhará Iron Maiden e Slayer, bandas quase cristãs se comparadas ao Ghost e explico abaixo os motivos.

O tema de todas as músicas é um só: Lucifer, Satanás, Demônio, Belzebu, Diabo, o Coisa Ruim, o Capeta, o Sete Pele, o Mochila de Criança… Chame como quiser.

Pois o Ghost escancara cânticos de louvor ao chifrudo avermelhado e o faz de uma forma interessante, pois em alguns momentos você pensa estar ouvindo uma música Gospel, só que é exatamente o contrário. Não há guturais, bumbos duplos e tudo o que você ouviria no Black Metal. Aqui a voz é suave, o som em alguns momentos é um Doom Metal, mas em boa parte soa como um Hard Rock ou até um Pop Rock, com uma voz suave e introduções que parecem mesmo as músicas de um culto religioso. As melodias são fortes e você pode se pegar facilmente cantarolando e agradando ao capeta.

O primeiro grande barato do Ghost é que ninguém sabe quem são seus integrantes, uma jogada de marketing que não é nova na música. Você vai me lembrar que o Kiss fez isso e o Slipknot idem, sendo que em um momento eles tiveram suas identidades reveladas após serem chamados, no caso do Slipknot, por números e não por nomes. Mas no Ghost ninguém tem nome. O vocalista é o Papa Emeritus II (que no primeiro disco era Emeritus I) e os instrumentistas são todos chamados Nameless Ghouls. E nem as famílias dos integrantes sabem que eles fazem parte da banda supostamente formada na Suécia.

Ao entrar no site do Ghost, você vai se deparar com a aba “About” e quando clica vem a pegadinha, pois não há nenhuma informação, apenas uma página em preto. Os fãs vivem tentando desvendar quem seriam os integrantes, já chegaram a cogitar Dave Grohl, ex-baterista do Nirvana e vocalista/guitarrista/dono do Foo Fighters (banda inativa atualmente) como baterista do grupo. A verdade é que todos os nomes foram negados e assim será até que a banda resolva revelar a identidade. Em um de seus videoclipes, da música “Year Zero”, eles fazem uma brincadeira em que cinco mulheres seriam os integrantes por baixo da máscara e da capa preta que todos vestem.

E quando eu escrevi acima que o marketing do Ghost B.C. é forte, ele não se reserva apenas à música, pois os produtos licenciados da banda são extremamente exóticos. Além de um biquíni, um produto encontrados na lojinha online da banda é um rosário que tem a cruz substituída pelo logo da banda, que tem uma cruz invertida. Achou bizarro? Então veja a bíblia da banda e, principalmente, o que há dentro dela: objetos sexuais como um “consolo” no formato da cabeça do Papa Emeritus II e um “plug anal”, além de um certificado de divórcio para ser preenchido. Tudo isso dentro de uma bíblia!

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E você aí achando que sua banda preferida trabalha bem o marketing vendendo camiseta e chaveiro…

No lado musical, O Ghost B.C. já lançou dois álbuns de estúdio. O primeiro, ainda usando apenas o nome Ghost (alterado por problemas judiciais nos Estados Unidos), foi Opus Eponymous, que teve todas as músicas lançadas de autoria de “A Ghoul Writer” em seu tracklist, além do cover de “Here Comes The Sun”, que aqui ficou mais sombrio e ganhou um nome extra (Lucifer Rising).

No segundo álbum, já como Ghost B.C. e com o Papa Emeritus II no vocal, o nome escolhido foi “Infestissumam” (“Hostil” em latim). Uma das músicas gravadas para o disco foi o cover de “I’m a Marionette”, do ABBA. A gravação contou com produção e participação de Dave Grohl na bateria, daí aquela ideia de alguns fãs de que ele seria um membro permanente da banda.

Sei que muitos podem não terminar de ler o post, podem ter odiado a banda. Mas uma coisa é certa, ninguém pode negar que o Papa Emeritus II e sua turma são carismáticos, bem humorados e sarcásticos, além de gostarem de covers, uma particularidade muito admirada por este blog.

O blogueiro aqui gostou do Ghost B.C. e ainda está tentando parar de cantarolar por aí as suas músicas…

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Ouviu falar do Rock in Rio Lisboa? Pois já acabou…

 

Sepultura e Tambours du Bronx no Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa 2012. Foto: Agencia Zero

No último domingo se encerrou mais uma edição do Rock in Rio Lisboa e pouco se falou sobre o festival aqui no Brasil, provavelmente devido à volta da edição brasileira do evento no ano passado e a confirmação de que teremos novamente o Rio de Janeiro como sede do Rock in Rio em 2013.

A principal novidade que foi noticiada em relação ao festival foi a confirmação das datas da estreante edição em Buenos Aires, na Argentina, que vai ter o evento nos dias 27, 28 e 29 de setembro, além de 4, 5 e 6 de outubro, enquanto o Rio fica com as datas de 13, 14, 15, 19, 20 e 21 de setembro.

Este blog não perdeu mais que dois minutos com qualquer um dos shows do Rock in Rio Lisboa 2012 e reparou apenas em alguns detalhes em relação à escolha das atrações para o Palco Mundo em comparação ao Rio de Janeiro no ano passado.

No primeiro dia do festival a atração principal do Palco Mundo foi o Metallica. O que foi o “dia do Metal” em Lisboa teve ainda os shows de Evanescence, Mastodon e Sepultura com Tambours du Bronx no palco principal, enquanto o Kreator (com Andreas Kisser) tocou no Palco Sunset.

Para quem não se lembra, a banda Glória foi a primeira atração do Palco Mundo no “dia do Metal” no Rio de Janeiro, enquanto o Sepultura tocou no Palco Sunset junto ao Tambours du Bronx. Aliás, não apenas o Sepultura, mas o Korzus e o parado Angra tocaram no palco secundário e a justificativa usada foram as parcerias.

Será que o Sepultura goza de mais prestígio em Portugal do que no Brasil?

Outra mudança em relação ao palco foi de Joss Stone, que subiu para o Palco Mundo no dia 2 de junho depois de ter tocado no entardecer do Rio de Janeiro no ano passado. No mais, em termos de atrações, o Rock in Rio brasileiro me parece ter sido bem melhor que o português, mesmo que os patrícios não tenham tido que aturar o show da Claudia Leitte…

No mais, tivemos algumas atrações interessantes como o Offspring, o Smashing Pumpkins e o Kaiser Chiefs, que se juntaram aos repetidos Stevie Wonder, Ivete Sangalo, Maroon 5 e Lenny Kravitz.

SWU: Começa com inteligência

A questão de haver ou não bandas de estilos musicais diferentes do Rock no festival Rock in Rio foi um tema polêmico há pouco mais de um mês. Faltando poucos dias para o início do SWU (Starts With You), decidi fazer uma comparação entre os dois eventos.

Em primeiro lugar, o SWU não usa um gênero musical em seu nome e poderia ser aberto a qualquer tipo de música, diferentemente do evento carioca. Mas curiosamente, o evento acaba sendo muito mais Rock do que o Rock in Rio.

E o ponto que considero mais inteligente do SWU é a criação de quatro palcos capazes de atender a diferentes públicos, além de separar bem as atrações de cada dia. Não me espantaria se, com a programação na edição deste ano do evento em Paulínia, os Medinas do Rock in Rio colocassem Black Eyed Peas, Duran Duran, Zé Ramalho e Megadeth no mesmo dia e no mesmo palco.

Já que falamos de algumas atrações, achei bacana a programação de cada dia e lamento apenas o fato de Neil Young ter sua presença garantida apenas em palestras sobre sustentabilidade. No mais, há atrações para todos os gostos dentro do que podemos considerar um público de festivais de música internacional – a galera de Hip Hop, Música Eletrônica, Pop e Rock.

Se você estava muito ocupado ou em outro mundo e não faz ideia do que poderá ver no festival. Faço aqui um resumo das atrações de cada dia:

No sábado (12), o palco Energia conta Marcelo D2, Snoop Dog e o Black Eyed Peas, enquanto Emicida, Damian Marley e Kanye West se apresentam no palco Consciência.

O domingo é o dia mais pop, contando com Zé Ramalho, Duran Duran e os rebeldes do Lynyrd Skynyrd, uma das maiores bandas de Rock de todos os tempos, no palco Energia. Pelo palco Consciência passam Ultraje A Rigor, Chris Cornell e Peter Gabriel, ex-Genesis. No mesmo dia, pelo New Stage tem a apresentação da viúva de Kurt Cobain, a louca Courtney Love com a banda Hole.

Em um dia um pouco ingrato para o final de um festival, chega a hora da música um pouco mais pesada na segunda-feira, quando os Raimundos se apresentam no palco Energia, seguidos por nomes como Black Rebel Motorcycle Club, Stone Temple Pilots e o Faith No More, do genial e louco Mike Patton. No palco Consciência tem a coisa mais legal feita por um integrante (ou ex) do Guns N’ Roses, o Duff McKagan’s Loaded, e depois uma sequência interessante com Down (do ex-vocalista do Pantera, Phil Anselmo), Sonic Youth, Megadeth e o repaginado Alice In Chains. Para quem gosta de algo mais pop ainda tem o Simple Plan no New Stage.

Assim como no ano passado, a organização caprichou na lista de atrações, sem inventar tanto na lista de artistas estrangeiros e dando espaço para grupos nacionais pouco conhecidos, o que o Rock in Rio abriu mão faz tempo.

Sim, você pode discutir o fato de o evento criado para promover a sustentabilidade não ter fãs que façam jus à causa, que vão ao interior paulista apenas pelas bandas e quando chegam em casa deixam todas as luzes acesas e a TV ligada enquanto dormem. Mas aí a culpa é do tico e teco que cada um tem na cabeça e não precisaria de um evento para criar consciência.

Axl Rose transformou Guns N’ Roses em banda cover de luxo

O Guns N’ Roses pode ser considerado como uma das últimas grandes bandas do Rock And Roll legítimo, mas o Rock in Rio mostrou mais uma vez que Axl Rose e sua trupe estão piorando com o passar do tempo e a culpa é justamente do líder.

Axl Rose perdeu o voo que trouxe a banda ao Brasil, chegou ao Rock in Rio apenas na tarde do dia em que faria o show de encerramento do evento e subiu ao palco parecendo uma mistura do Leôncio (leão marinho do desenho Pica-Pau) e o Máscara (aquele interpretado por Jim Carey), devido ao chamativo casaco amarelo usado como uma capa contra a torrencial chuva na Cidade do Rock.

A promessa era um set list com mais de 30 músicas, o que foi anunciado posteriormente em programas de TV como se tivesse ocorrido, mas a lista foi bem reduzida. Ficaram de fora músicas como “My Michelle”, “Out ta Get Me”, “Madagascar”, “Whole Lotta Rosie” (do AC/DC), “Nice Boys”, “Used to Love Her”, “Oh My God” e “Think About You”, além de várias do famigerado álbum Chinese Democracy.

Ok, o Guns N’ Roses executou sucessos necessários para um bom show. Mas em alguns momentos foi possível ver Axl Rose fazendo uma mini-reunião para anunciar para a própria banda a próxima música do show. Isso fica nítido em “Nightrain”, em que o som vaza no microfone do vocalista e dono da banda.

Muitos fãs da fase clássica do grupo norte-americano criticam os músicos da fase atual, querem uma reunião com Slash, Duff McKagan e cia limitada, mas me parece que o problema atual do Guns N’ Roses não é em torno dos músicos, que tocam de forma competente, mas do próprio Axl Rose.

Pois é difícil admitir que muito cantor de banda cover cantaria algumas músicas melhor do que o atual Axl Rose, que consegue errar durante os próprios clássicos, como em “November Rain”, em que ele até improvisou um “it’s hard to hold a candle in the cold brazilian rain” no começo (já que o palco estava cheio d’água), mas depois de se atrapalhou todo na parte final da música enquanto cantava e tocava piano.

Dj Ashba, Ron “Bumblefoot” Thal e Richard Fortus fazem um bom trabalho nas guitarras. Dizzy Reed dá o ar da graça ao tocar no piano o clássico “Baba O’ Riley”, do The Who, além de Bumblefoot tocar o tema da Pantera Cor-de-Rosa em seu solo.

Até mesmo no solo de “Sweet Child O’ Mine” dá para deixar passar em branco o fato de não ter Slash, já que a execução de Bumblefoot é bem honesta. Mas em “Knockin’ On Heaven’s Door” bate a saudade da banda antiga. Se antes o Guns N’ Roses “tornou sua” a música composta por Bob Dylan, o novo formato apresentado não empolga.

Outro ponto ruim é que em alguns momentos do vídeo em que assisti do show na noite desta segunda-feira, Axl Rose parece contar com uma “ajuda” em seu vocal durante algumas músicas e não estou falando de backing vocals.

É ruim saber que você fez bem em dormir para cumprir corretamente suas tarefas no trabalho, ignorando o show de uma grande banda. É péssimo ver que o Guns N’ Roses de hoje está mais para uma banda cover e pior ainda é perceber que o maior defeito da banda atualmente é o próprio Axl Rose.

Talvez nem uma reunião com os membros da formação clássica (o que não deve acontecer, já que Axl não se mostra muito humilde para chamar de volta os ex-companheiros) seja capaz de salvar o que um dia esteve entre as maiores bandas do mundo.

Set list
Chinese Democracy
Welcome To The Jungle
It’s So Easy
Mr. Brownstone
Sorry
Solo Richard Fortus
Live and Let Die
Rocket Queen
This I Love
Solo DJ Ashba
Sweet Child O’ Mine
Estranged
Better
Solo de Dizzy Reed/”Baba O’Riley” (The Who)
Street Of Dreams
You Could Be Mine
“Sunday Bloody Sunday” (U2)
“November Rain”
Solo de Ron “Bumblefoot” Thal/tema de Pantera Cor-de-Rosa
Knockin’ On Heaven’s Door
Night Train

Bis
Patience
Paradise City

Nova Era chegou ao fim para o Angra?

O Angra chegou ao Rock in Rio com boatos de que aquele poderia ser o último show da atual formação da banda ou até o encerramento definitivo de um dos grupos mais importantes do Rock/Metal do Brasil e o momento foi histórico, para jamais ser esquecido, como disseram os músicos após a apresentação. Mas os motivos do show marcante não foram dos melhores.

Os problemas técnicos no Palco Sunset, onde se apresentou a banda, foram bisonhos. Houve problemas nos PAs, a banda ficou sem retorno nenhum no palco e na transmissão pela TV o som ficou embolado, sumindo as guitarras, ou o baixo, ou as vozes mesmo.

O vocalista Edu Falaschi também esteve longe de suas boas apresentações cantando e quando Tarja Turunen foi cantar o cover de Kate Bush “Wuthering Heights”, gravado pelo Angra no álbum Angels Cry e não executado desde antes da saída de Andre Matos em 1999, eis que a cantora finlandesa ficou sem retorno nenhum no palco e não entrou junto com a música.

A situação que se vê é bizarra, com os músicos deixando o palco e Tarja sozinha tentando interagir com o público e de certa forma se mostrando envergonhada pelo ocorrido.

Enfim, o repertório escolhido pelo Angra foi interessante, teve “Angels Cry”, “Lisbon”, “Carry On/Nova Era”, a nova “Arising Thunder”, além de “Spread Your Fire”, “Wuthering Heights” e “Phantom Of The Opera”, as três últimas com Tarja Turunen. O problema é que o show foi uma catástrofe que acabou mostrando que a fase não é boa para a banda e vai ser difícil a recuperação desta vez.

Depois de Rafael Bittencourt negar o fim da banda, eis que o vocalista Edu Falaschi solta um comunicado dizendo que vai parar no final do ano para recuperar a voz e avisa que não vai cantar músicas que não são adequadas para o seu estilo vocal, leia-se, os clássicos do Angra.

Sabendo que a banda já estava fragmentada com Kiko Loureiro se dividindo entre o Brasil e a Finlândia, Edu Falaschi e Felipe Andreoli tocando com o Almah, Rafael Bittencourt viajando com o Bittencourt Project e Ricardo Confessori tendo também o Shaman como banda, não se sabe o que pode acontecer, mas eu arrisco que a formação atual não volta a se apresentar junta. Alguém sai.

Ficou meio óbvio após o comunicado de Edu Falaschi que ele é a baixa mais provável da banda, mas como as coisas não vão bem, ele pode não ser o único a abandonar o barco, o que acabaria com a “nova era” criada depois que Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori pularam fora.

A fase é tão ruim que ao olhar a situação dos outros integrantes que passaram pelo Angra, ninguém está tão bem assim. Luis Mariutti se afastou da banda solo de Andre Matos, enquanto o vocalista embarcou no Symfonia, um projeto de Metal Melódico com estrelas do gênero como Timo Tolkki, o que também não deu muito certo, a ponto de a banda ter tocado em uma casa minúscula de shows em São Paulo depois de reservar um espaço maior e não ter procura.

Com uma bela história contada ao longo dos sete álbuns de estúdio (Angels Cry, Holy Land, Fireworks, Rebirth, Temple of Shadows, Aurora Consurgens e Aqua), a pior coisa para o Angra neste momento seria encerrar as atividades em baixa, após ter levado o estilo musical do Brasil para o mundo ao lado de Sepultura e Krisiun.

Enquanto todo mundo aguarda as respostas do Angra, se Edu Falaschi vai sair, se vai entrar alguém no lugar, se vai voltar o Andre Matos (Não acredito na alternativa, mas sei que muitos fãs querem isso faz tempo) etc., deixo aqui uma versão ao vivo de Wuthering Heights cantada por Andre Matos com o Angra e curiosamente ele canta mais alto que Tarja Turunen!

Senta lá, Cláudia!

O baixo número de atrações de Rock na quarta edição brasileira do festival Rock in Rio fez da cantora carioca Cláudia Leitte a vítima de reclamações de roqueiros contra o evento. Virou febre nas redes sociais a piadinha de que “se a Cláudia Leitte pode tocar no Rock in Rio, o Metallica tem que tocar no Carnaval da Bahia”.

São piadas, o público pega no pé contra o evento que tem Rock no nome, coisa normal e que poderia ser relevada por uma artista do tamanho que tem atualmente a cantora de axé, que leva multidões em seus shows e tem seus discos entre os mais vendidos. Mas a resposta de Cláudia Leitte beirou o infantil.

A cantora publicou em seu blog uma comparação do tratamento dos roqueiros que só querem Rock no Rock in Rio com o nazismo de Hitler, um dos acontecimentos que mais marcaram a humanidade e que nem deveriam ser citados em uma coisa banal como essa discussão de o Rock in Rio ter ou não Rock. Ela ainda criticou as atrações internacionais que se apresentaram no mesmo dia no Rock in Rio, as cantoras pop Kate Perry e Rihanna.

“Artistas internacionais vêm pra cá, mostram a bunda, atrasam-se por 2 horas pq estão dando uma festinha no camarim, não conseguem conciliar a respiração com o canto, não preparam espetáculos para o nosso povo, desafinam, enfim, pouco se importam conosco, querem beijar na boca, ir à praia e tomar nossa cachaça, e nós, que pagamos caro para assistir aos seus “espetáculos” em nossa terra, aplaudimos a tudo isso. Ah! É Rock! É Pop! É bom!”, escreveu a cantora.

Depois de escrever o post descobri fui informado que a cantora foi vaiada no Rock in Rio e não pelos roqueiros, mas pelo próprio público que estava lá para ver seu show. Em um vídeo divulgado no YouTube, Cláudia Leitte é vaiada após iniciar a música “Corda do Caranguejo”, quando o público que estava sendo esmagado à frente do palco gritava “Não!”. A reação da cantora foi: “A pergunta que não quer calar é a seguinte: Você aguenta o curso? Foi por isso que você se matriculou”, e aí deu no que deu. O pessoal não aprovou.

Não vi outras atrações do evento choramingando por isso, pelo contrário. Também me parece uma coisa muito desagradável um artista criticar o profissionalismo ou a falta dele por parte de outro cantor ou cantora que se apresentou no mesmo dia, no mesmo palco.

Ainda mais lembrando que no Brasil adoramos exaltar a quem exibe a bunda, não dispensamos a caipirinha, a cachaça, beijar na boca e etc. E os estrangeiros sempre ‘roubam’ o público de artistas brasileiros no Rock, em que as bandas nacionais estão cada vez contando com um público menor devido ao aumento de shows internacionais. Algum artista roqueiro protestou contra isso? Da mesma forma? Não.

E o set list apresentado pela cantora até que foi o “mais Rock” comparado com as cantoras que se apresentaram na última sexta-feira no dia de abertura do festival. Cláudia Leitte tocou “Manguetown” de Chico Science & Nação Zumbi, além de mandar o reggae do Led Zeppelin “Dy’er Mak’er” e um trecho de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, durante “Beijar na Boca”, um dos sucessos da cantora.

Enquanto Claudia Leitte ainda está preocupada com os comentários após o seu show, a cantora baiana Ivete Sangalo, que se apresenta nesta sexta-feira no Rock in Rio, responde com bom humor e uma dose de ironia quando questionada se está preocupada por tocar axé no evento.

“Não vou fazer malabarismos, virar cambalhota, nem cantar uma música da Alanis Morissette para conquistar o público. Eu sou uma cantora de axé e por isso fui contratada no festival”, disse a cantora ao jornal O Globo.

Ivete Sangalo ainda lembra que o seu axé também tem guitarras e brinca ao lembrar que tem músicas com riffs pesados como heavy metal. “‘Dalila’ é a minha música mais Heavy Metal e vai estar no repertório também. Gosto muito de som pesado. Aliás, o axé tem uns riffs de guitarra, que, se apertar um pouco mais, vira Heavy Metal. Nada é mais Rock N’ Roll do que o axé”.

Com declarações deste tipo, duvido muito que a companheira ou rival de gênero musical de Cláudia Leitte tenha o mesmo tipo de reação para as reclamações do público roqueiro. Até porque o dia do Rock puro no festival foi no último domingo e já acabou.

Rock in Rio foi a glória do Glória. Com Eloy Casagrande e covers do Pantera, banda virou o jogo e abafou as vaias

Você pode ter lido neste blog ou em qualquer site musical que a banda Glória corria grande risco de ser o fiasco do Rock in Rio pela recepção do público e ao ser escalado para o Palco Mundo no festival enquanto Sepultura, Korzus e Angra iriam para o secundário Sunset no dia do Heavy Metal no evento de Roberto Medina. E todos erraram.

Quando questionei via Heavy Nation ao pessoal do Korzus o que achavam de o Glória tocar no Palco Mundo enquanto nossas principais bandas iriam para um palco secundário. O vocal Marcello Pompeu respondeu: “Vai ser a glória do Glória!”. E foi.

Se teve uma banda que peitou exemplarmente a reação negativa do público, esta foi o Glória, que vive uma transição do hardcore melódico para o metalcore, um estilo que vem crescendo no mundo todo, mas por aqui ainda sofre resistência.

Enquanto o público vaiou desde o início do show, a banda entrou cantando um refrão com “É tudo meu, vai se foder!” e deixou aquela impressão de que estava “defecando montão” (parafraseando o cartola Ricardo Teixeira) para a reação do público.

Depois disso ainda conseguiu abafar as vaias e ganhar a ‘torcida’ com uma sequência de covers do Pantera, com as clássicas “Domination” e “Walk”, além de um solo matador do garoto Eloy Casagrande, uma escolha acertada da banda para a bateria. E o repertório a seguir privilegia as músicas mais pesadas do grupo, que acabou com aquele chiado que vinha da plateia.

O que era constrangedor no início, enquanto o público vaiava e gritava pelo Sepultura – que estava pagando seus pecados no palco Sunset com um som amador (Korzus tambem sofreu e o show do Angra virou uma catástrofe graças aos problemas técnicos), e tinha o seu show atrasado -, virou um grande momento de uma banda que dava a cara a tapa.

Acompanhei pela TV e a curiosidade de como acabaria o Glória no Palco Mundo me fez ligar o stream no computador quando o Multishow cortou para mostrar o Sepultura. Sim, segui os dois shows simultaneamente e no final fiquei de queixo caído com o que o Sepultura fez, além de surpreso com a coragem e a competência do Glória.

Não sou fã do Glória, inclusive já fiz um post aqui mostrando que havia certa “influência” de um riff do Megadeth em uma música deles. Mas deixar de reconhecer os méritos pelo show do Rock in Rio seria um grande erro.

O que acho na banda? O instrumental mostrado pelo Glória no Rock in Rio foi absurdo, com muita qualidade e peso brutal. Não gosto daquela voz ridícula do guitarrista Elliot, que faz os backing vocals, que tenho certeza ser o motivo por ter lido em alguns lugares que a banda era um “metal emo” ou um “Restart mau educado”. E os berros do vocalista Mi soam um tanto exagerados em alguns momentos, mas antes um berro do que uma gemida como a outra voz.

Mas o grande nome da banda é, sem dúvida, o baterista Eloy Casagrande, que tem apenas 20 anos e é mestre em tocar com dois bumbos. Ele começou em uma banda grande de metal quando foi recrutado por Andre Matos para o seu grupo solo e está no Glória há pouco tempo. Na época em que começou a tocar com Andre Matos, o prodígio das baquetas precisava da autorização dos pais para viajar com a banda e já causava espanto ao tocar tanto com tão pouca idade.

Após a entrada de Eloy, o Glória promete lançar um disco mais pesado e assim esperamos para que não restem referências a “emo metal”, lembrando que o vocalista e fundador da banda Maurício Vieira (o Mi) tocava anteriormente na banda de emocore Dance of Days antes de criar em 2002 a sua nova empreitada.

Ao final do show do Rock in Rio, Mi postou no Twitter que agora o Glória pode se considerar uma banda de Metal. E é bom que a banda assim o faça. Quanto às críticas pela escalação do festival, a culpa não é do Glória e sim do evento. O equívoco não foi apenas por escalar o grupo paulistano, mas por desrespeitar o Heavy Metal nacional ao deixar três de suas maiores bandas na história fora do palco principal.

O Sepultura foi monstruoso na história da música brasileira, é o maior nome do Metal brasileiro, apresentou um dos melhores shows de toda a programação do Rock in Rio 2011 e não poderia estar jamais escalado de forma secundária em um palco “mambembe”, como bem disse João Gordo em entrevista ao vivo para o Multishow. Faltou respeito ao Heavy Metal nacional.

Empresária responsável pelo gerenciamento da carreira do Sepultura e atualmente também do Angra, Monika Cavalera postou no Facebook um texto de esclarecimento sobre a escalação do Sepultura para o palco Sunset.

“Só pra deixar bem claro.
O SEPULTURA quem quis tocar no SUNSET,porque seria o encontro das duas bandas.O resultado pra gente foi o melhor possível..Somos muito gratos ao Rock in Rio,independente dos problemas que tivemos lá.Mas eu tbm sabia o que ia acontecer com o Gloria quando começou a embolar o horário e avisei a eles.Enfim… que venha o próximo!!!!”.