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Eddie Van Halen – a perda do ícone em um mundo doente

Estamos vivendo no meio de uma pandemia que ceifou mais de um milhão de vidas no mundo, o período em que perdi meu melhor amigo, inclusive, mas toda desgraça parece pouca para 2020. Depois de Neil Peart, o melhor baterista que eu vi tocar, hoje foi a vez de Eddie Van Halen partir, aos 65 anos, vítima de um câncer de garganta que teve complicações após dez anos de tratamento. Uma lástima.

Difícil mensurar o tamanho de Eddie Van Halen, mas sabe quando você pensa naqueles caras que marcam em alguma atividade específica, o cara que é ícone, aquele que faz algo de diferente? Este foi Van Halen, um cara tão criativo e revolucionário quanto Jimi Hendrix, Richie Blackmore, Chuck Berry e BB King.

Desde a guitarra Frankenstrat, que o próprio criou com características que atendessem ao som desejado, reunindo o melhor da Fender Stratocaster com a captação de som de uma Gibson, o uso da ponte Floyd Rose com alavanca, enfim, uma criatividade que foi além da técnica.

Inventor do tapping, Eddie influenciou toda uma geração de guitarristas que surgiram após a criação do Van Halen e o que a banda apresentou em seu primeiro álbum, homônimo, em 1978. A técnica usando com as duas mãos no braço da guitarra foi uma de suas marcas registradas.

Eruption é uma aula para qualquer guitarrista, a música na qual Eddie despejou todo o seu talento com o melhor solo que já ouvi e que é um marco na história do Rock, hoje tão combalido. E com todo respeito ao The Kinks, não consigo ouvir You Really Got Me sem que seja uma sequência de Eruption, ficou impossível dissociar uma da outra na versão do Van Halen.

É uma pena que tenha havido hiatos na carreira do Van Halen a partir do final dos anos 90, e as reuniões da banda não tenham esticado suas turnês muito além dos Estados Unidos, pois para a minha geração foi impossível ver um show da banda no Brasil, considerando que a única passagem do Van Halen pelo Brasil foi ainda em 1983, com nove shows, sendo três no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, três no Maracanãzinho, no Rio, e outros três no Gigantinho, em Porto Alegre.

Das frustrações que tenho, uma delas é não ter tido a oportunidade de ver e ouvir EVH tocando ao vivo. Só fui conhecer direito a banda no álbum Balance, com Sammy Hagar como vocalista, e aí veio Gary Cherone, a separação da banda e o tempo passou.

Neste blog ficou às teias durante os últimos anos, com alguns posts esporádicos em mortes de músicos como agora com Eddie Van Halen, meu único texto sobre a banda foi escrito em 2012, quando houve o lançamento do último álbum de estúdio “A Different Kind of True”, que embora contasse novamente com David Lee Roth, não tinha Michael Antony, e no baixo estava o filho Wolfgang.

Por fim, volto a lamentar que não tenha havido Van Halen nos palcos além de outubro de 2015, quando a banda se apresentou ao vivo pela última vez no Hollywood Bowl, em Los Angeles.

Com Neil Peart e Eddie Van Halen, em algum lugar há uma superbanda se formando, enquanto aqui podemos seguir ouvindo obras que ambos deixaram e que mudaram a música para sempre. Obrigado!

Van Halen e Megadeth acertam com ‘reciclagem’ musical

Em um mundo à beira da escassez, a reciclagem é algo que felizmente está em crescimento quando falamos sobre o lixo. Encartes de discos, packs dos CDs, muita coisa já é mais sustentável na música, mas agora está virando moda “reciclar” as próprias sobras de estúdio, aquelas pelas quais apenas as gravadoras se importavam antigamente na tentativa de arrancar uma grana após a morte de um artista ou o fim de sua carreira.

O curioso é que a “reciclagem” tem dado muito mais certo do que a simples criatividade de muitos músicos. Com o automático funcionando em quase tudo, ferramentas como o Pró Tools sendo essenciais, a verdade é que a música atual chega a ficar chata de tão certinha e tão parecida.

Quando vem alguém e trabalha em cima de algo criado há mais de dez anos, a sensação é a de que “voltamos a fazer boa música”. Foi isso o que fez o Van Halen em seu retorno com um álbum de estúdio após 14 anos no lançamento de A Different Kind of Truth, na primeira semana de fevereiro de 2012.

É claro que muitos fãs devem ter torcido o nariz ao saberem que o novo álbum não é tão inédito assim, contando com sobras de estúdio e músicas refeitas, mas não dá para negar a qualidade do disco. Fica aquela sensação de que o fã é chato, pois ele claramente quer o Van Halen de 20 anos atrás e não uma banda toda moderninha que tenha o nome de Van Halen, basta usar o pouco empolgante Guns N’ Roses atual como exemplo.

Se não conta com Michael Anthony no baixo, como muitos também desejavam, Wolfgang Van Halen, o filho do guitarrista, líder e dono Eddie Van Halen, não se sai ruim. O garoto não deixa a desejar ao lado de Eddie, do tio Alex e do vocalista David Lee Roth, um intruso na atual “banda de família”. E é melhor deixar Michael Anthony ao lado do outro ex-Van Halen Sammy Hagar, do guitarrista Joe Satriani e o baterista Chad Smith no Chickenfoot, outra banda que vem trabalhando bem, como prova o álbum III, o segundo do quarteto (sim, o nome é uma brincadeira).

“Ripley”, de 1984…

…virou “Blood and Fire” em 2012

Em A Different Kind of Truth, o Van Halen coloca velocidade em “As Is”, tem a balada chiclete “Tattoo”, primeiro single do álbum. “She’s the Woman” é uma música com a cara de Lee Roth, “You And Your Blues” traz a guitarra com assinatura de Eddie e o refrão bem característico de 20 anos atrás. “China Town” também tem velocidade de Heavy Metal e conta com um “quê” de moderna, “Blood and Fire” seria facilmente colocada no álbum “Van Halen II”.

Agora, o Van Halen não é o único a se dar bem com a reciclagem musical. Já ouviu o mais recente álbum do Megadeth, o tal de Th1rt3en? Pois o disco também conta com sucata de outros tempos e o resultado sai melhor que os carros repaginados do “Caldeirão do Huck”.

Dave Mustaine não sabia se conseguiria fazer um novo álbum devido aos seus problemas no pescoço que fizeram o vocalista, guitarrista, líder e dono da porra toda no Megadeth passar por uma cirurgia. Baixista que estava afastado desde The World Needs A Hero (2001), Dave Ellefson voltou para a banda, que não abusou tanto da velocidade e apertou o dedo no botão do peso.

Sendo o 13º disco do Megadeth, com o líder Dave Mustaine tendo nascido em um dia 13, eles juram que não contam com a mesma superstição de Zagallo em Th1rt3en, que conta com treze músicas de diversas fases da banda, mas que ficaram pelo caminho e foram lançadas apenas em compilações para fã-clubes, etc.

O resultado da empreitada do Megadeth é ótimo, com destaque para “Public Enemy Nº 1” e “Sudden Death”, que pôde ser ouvida anteriormente no game Guitar Hero. “New World Order” deveria ter saído no álbum Countown to Extinction, de 1992. “Black Swan” era uma faixa bônus para o fã-clube da banda antes do álbum United Abominations (2007). O disco é finalizado com a faixa de número e nome 13, que mostra o lado acústico da banda norte-americana.

“Sudden Death” no game Guitar Hero…

…e no álbum Th1rt3en

Ainda há muitos outros músicos que reciclam músicas que não serviram a outros álbuns e se saem bem assim. Isto é um bom exemplo para aqueles novatos que adoram entrar na onda de despejar material depois de gravarem 30 músicas para um disco onde só cabem dez faixas. A não ser que você seja Axl Rose, que gravou muita coisa durante dez anos para o Chinese Democracy e algumas faixas do álbum aparentemente servem apenas para ocupar espaço no disco.