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A morte e a obra de Chester Bennington

Na tarde desta quinta-feira (horário de Brasília), o site americano TMZ espantou novamente o mundo da música com a notícia de que o cantor Chester Bennington, vocalista do Linkin Park (ex-Stone Temple Pilots / Dead by Sunrise) , foi encontrado morto em sua residência aos 41 anos.

Mais tarde veio a confirmação por meio do outro vocalista do Linkin Park, Mike Shinoda. As informações deram conta de suicídio por enforcamento. Uma curiosa e mórbida coincidência. Há dois meses e dois dias morreu da mesma forma Chris Cornell, vocal do Soundgarden, Temple of the Dog e Audioslave, que completaria 53 anos nesta quinta-feira.

Os dois músicos eram próximos. Há um registro no vídeo abaixo de ambos cantando juntos a música “Hunger Strike”, do Temple of the Dog (em 2010), além de uma participação de Cornell com o Linkin Park em “Crawling”  (em 2008).

No velório de Cornell, Chester foi um dos presentes e cantou uma bela versão de “Hallelujah”. Ele escreveu uma mensagem também bastante emocionada ao amigo quando soube de sua morte.

Em tempos de pessoas extremistas para todos os lados, há muito julgamento, a morte de alguém famoso é sempre cercada de todos os boatos possíveis, de inúmeros pré-conceitos, aquela historinha de “Rock e drogas”, uma hipocrisia que a cada dia piora.

O maior inimigo de uma pessoa que comete um suicídio é a própria mente, é a depressão, sequências traumáticas que geram consequências trágicas. Casos que merecem cada vez mais atenção para que possam vir a ser evitados com outros indivíduos no futuro.

Conheço pessoas que sofreram do mesmo problema, uma bomba-relógio que em 5 minutos acabou uma vida, várias, e continua enquanto não se der mais atenção a esta depressão, doença ignorada, que não abastece a indústria farmaceutica, na verdade é muitas vezes abastecida por ela nos efeitos colaterais tal qual com drogas e álcool.

Morreu não apenas um cantor de 41 anos, em fase produtiva na carreira, mas um pai de seis crianças, um marido, um filho.

O músico

Chester Bennington foi um cantor admirável, com uma voz potente que ajudou a alçar voos com o Linkin Park, banda que lançou dois fortes discos, o Hybryd Theory (2000) e o Meteora (2003) no início da década passada e ganhou o mundo.

Estive em um show da banda em 2004, quando eles visitaram o Brasil pela primeira vez e eles eram bem explosivos, surfavam no sucesso do segundo álbum trazendo um som diferente, que ajudou a fincar a bandeira do nu-metal, um pouco na linha do Korn, mas com a novidade que eram os gritos de Chester e o rap de Shinoda.

Depois de alguns anos, lançaram com a produção do renomado Rick Rubin o Minutes to Midnight (2007), um pouco mais melódico, menos velocidade, menos gritos, mas que também atingiu boas marcas num momento de declínio da indústria musical.

Então veio A Thousand Suns (2010), mais pop, mais experimental e mais fraco que os três álbuns anteriores, que teve relativo sucesso e ajudou a manter a banda em evidência. Living Things (2012) manteve com aquelas músicas de balada pop, com uma banda cada vez mais light e distante daquela que os colocou no main stream.

A banda se reaproximou do nu-metal em The Hunting Party (2014), com uma pegada mais forte e participações interessantes como a de Tom Morello (Rage Against The Machine/Audioslave), em “Drawbar”, de Daron Malakian (System of a Down/Scars on Broadway), em “Rebellion”, e de Page Hamilton (Helmet), em “All for Nothing”, e do rapper Rakim em “Guilty All the Same”. O disco trouxe o melhor do vocal de Bennington, que sempre casou bem com um instrumental poderoso.

O último lançamento do Linkin Park com Chester foi há exatos dois meses, nominado One More Light, que mudou completamente a direção da banda, com uma sonoridade muito mais para Justin Bieber do que para tudo o que eles haviam feito por todos esses anos, pior inclusive que aqueles discos alternativos como o Reanimation e o Recharged, que tinham músicas regravadas com outra roupagem.

O álbum foi alvo de críticas de fãs e o vocalista chegou a ser alvo de uma garrafa atirada do público durante a apresentação da música “Heavy” (que de heavy não tem nada) no Hellfest, em junho.

No Brasil a banda se apresentou em nove shows ao longo da carreira, passando pelo Chimera Festival, em São Paulo (2004), SWU, em Itu/SP (2010), Arena Anhembi, em São Paulo, Citibank Hall, Rio de Janeiro, e Gigantinho, em Porto Alegre (2012), Circuito Banco do Brasil em Belo Horizonte e Brasília (2014), e Maximus Festival, em São Paulo, no dia 13 de maio de 2017.

A última apresentação do cantor com o Linkin Park foi no dia 6 de julho, em Birmingham, na Inglaterra, pela One More Light Tour. Eles ainda fariam um show na Manchester Arena no dia 7, mas acabaram cancelando a apresentação devido ao ataque que matou 22 pessoas no local durante um show da cantora Ariana Grande.

O grupo americano tinha shows agendados a partir da próxima quinta-feira, 27 de julho, que iniciaria uma sequência de apresentações até novembro ao lado de convidados como o Blink 182, Machine Gun Kelly e Snoop Dogg.

Fora do Linkin Park, Chester cantou com o Stone Temple Pilots no lugar de Scott Weiland (falecido em dezembro de 2015) e mandou bem. O EP High Rise foi seu único registro com a banda e trouxe a ótima “Out of Time” e outras quatro faixas de respeito.

Outro registro foi com o Dead by Sunrise, que teve apenas um álbum de estúdio lançado, Out of Ashes (2009), com um som mais obscuro e mais rock que o Linkin Park daquele período pós-Meteora. É um trabalho não tão conhecido do músico, mas de qualidade.

Que Bennington descanse em paz e seja reconhecido por sua obra. #RIPChesterBennington

Uma das mais belas vozes do Rock se cala

Acordar cedo não me agrada, nunca agradou. Ainda mais quando não é programado, quando estou desempregado e não preciso despertar apressado.

Quando isso acontece, você olha para o lado, pega o celular para ver as últimas notícias e vem aquele soco no estômago. Já aconteceu algumas vezes, o de hoje foi doloroso: Morreu Chris Cornell.

 

Cornell do Soundgarden, do Audioslave, do Temple of the Dog. Simplesmente Cornell. O cara bonito, talentoso, com personalidade, uma das mais belas e potentes vozes do Rock. Para este blogueiro, um dos artistas mais completos do Rock e o melhor vocal de toda aquela turma de Seattle. Talvez um fã de Eddie Vedder pode rebater, entenderei, pois o carisma do frontman do Pearl Jam o coloca num pedestal que muitas vezes reduz a percepção à voz.

Numa semana onde se lembram os 7 anos da partida de Ronnie James Dio e os 30 do suicídio de Ian Curtis, um Chris Cornell sai de mais um show apresentado com maestria e se enforca em um hotel em Detroit aos 52 anos, jovem e em fase produtiva. No Soundgarden, vinha em turnê pelos Estados Unidos desde abril deste ano.

Em sua carreira solo – muitas vezes esquecida quando a turma lembra do trabalho nas bandas da qual fez parte -, vinha de um álbum lançado em 2015 (Higher Truth), além de participação em trilhas sonoras. Em abril deste ano o último single lançado em vida foi justamente uma trilha sonora chamada “The Promise”, lançado em abril deste ano com o filme homônimo.

Se você não conhece a carreira de Cornell, recomendo que ouça os álbuns Badmotorfinger (1991) e Superunknown (1994), com o Soundgarden, Temple of The Dog (1991), com o Temple of The Dog, Audioslave (2002), do Audioslave, e Euphoria Morning (1999), da carreira solo do cantor. Nos citados você vai reconhecê-lo como grande compositor e cantor.

Quando escrevo que Cornell foi um artista completo, recomendo que ouça ou assista seus shows, seus improvisos e a criatividade. Na última passagem pelo Brasil, em dezembro de 2016, apresentou na Ópera de Arame, em Curitiba, por exemplo, uma versão de “One”, do U2, cantando a letra de “One”, do Metallica.

Também apresentava uma bonita versão de “Billie Jean”, do Michael Jackson, que foi registrada no álbum solo Carry On (2007), além de várias outras versões de Beatles, Bob Dylan, Bob Marley e de seus próprios sucessos com Soundgarden, Temple of the Dog e Audioslave.

O Audioslave, aliás, era a banda que tinha tudo para ser gigante por um longo período, mas não deu certo. Era minha trilha sonora diária nos anos 2000, reunindo Cornell com Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk (guitarrista, baixista e baterista do Rage Against the Machine – atualmente membros do Prophets of the Rage, que tocou no Brasil no último fim de semana).

A banda que acabou em 2007, voltou a “se encontrar” em janeiro deste ano em uma apresentação de Cornell com o Prophets of the Rage, em Los Angeles, com a execução de “Show me How to Live”, “Like a Stone” e “Cochise”, esta com um vocal alto que lembra um pouco a zeppeliana “Whole Lotta Love”, também gravada pelo cantor americano em uma parceria com o guitarrista Carlos Santana.

Homenagens vieram e virão de muitos artistas nos próximos dias, seja naquelas mensagens de redes sociais ou até em shows, como fez o Megadeth, no Japão, ao apresentar “Outshined” (vídeo abaixo).

 

Já li, ouvi e vi muita coisa sobre a morte de Chris Cornell, até sobre a infeliz coincidência de ele ter cantado durante a execução de “Slaves & Bullldozers” o refrão de “In My Time of Dying”, coisa que ele já havia feito em outros shows da turnê com o Soundgarden. Bobagem. Ninguém vai conseguir agora ler tardiamente a mente dele e procurar motivos para um suicídio. Não tem volta, nem solução.

Cornell teria mais a apresentar, mais shows a fazer, novas músicas a cantar, mas por algum motivo optou por encerrar tudo. Me resta agradecer pelo que fez e aproveitar para prestigiar o legado.

Chris Cornell em um dos últimos shows com o Soundgarden