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O gênio mora ao lado

Geralmente vemos nossos ídolos como pessoas distantes. Músicos de respeito, gênios, estes são daquele tipo que sempre acreditamos que nunca chegaremos perto. Mas para mim isso foi bem diferente desde cedo. Tive a oportunidade de entrevistar um dos meus maiores ídolos na música, o vocalista Bruce Dickinson, mas vivi muito mais próximo de outro músico.

Pois de Tietê, terra do tenista Thomaz Bellucci e do vice-presidente Michel Temer, veio a São Paulo uma figura que considero de muita importância. Negão, cabeludo, andarilho, simpático e gênio. Este era Itamar Assumpção, uma figura que quando eu era criança pouco entendia o motivo de todo aquele jeitão esquisito e aqueles óculos exóticos.

Mas em minha adolescência eu já sabia quem era o Itamar e um dos meus sonhos era ser músico, então tornava-se muito interessante procurar saber que tipo de música fazia aquele sujeito. Demorei muito para assimilar, pois na época eu ouvia muito pouca coisa, resumindo meus ouvidos a Led Zeppelin, The Doors, Black Sabbath, Iron Maiden, Metallica e Ramones, com algumas coisas a mais.

Itamar Assumpção cantava, tocava, compunha, e até hoje é reverenciado por muitos músicos que o público tornou famosos. Mas Itamar não ganhou fama, teve raras aparições na TV Cultura e uma ou outra na Globo, jamais deixou aquela casa sem luxo na Penha onde por muito tempo eu aproveitei o portão de sua garagem como um gol.

Quando eu andava à noite, não era estranho ver o tiozinho caminhando durante a noite como quem estivesse fazendo um exercício matinal. Era o típico sujeito que trocava o dia pela noite, uma das melhores experiências para quem não tem aquela responsabilidade chata de acordar cedo todos os dias.

Itamar Assumpção morreu vítima de câncer no intestino em 2003, quando eu já estava aproximadamente um ano vivendo na quente Caraguatatuba, no litoral paulista. Com um grande legado musical, teve suas composições gravadas por Cássia Eller, Luiza Possi, Ney Matogrosso, Rita Lee, Tom Zé e Zélia Duncan, entre outros. E outro legado é o trabalho de sua filha Anelis Assumpção, uma ótima cantora que eu via desde sua juventude.

É por ver artistas como Itamar Assumpção criarem belas obras e lucrando muito pouco por isso que eu fico puto da vida quando ouço aqueles Funks em que os sujeitos não sabem o que é uma pauta musical, nem um simples acorde, utilizam apenas samplers de músicas que fizeram sucesso, botam um lixo de letra por cima e ficam ricos. Sim, meus caros, a música muitas vezes é injusta. Ou seria o nosso público ignorante e injusto?

Maldição bate à porta novamente

Câncer. Uma doença que é tão cruel que muitas vezes dá até medo de proferir o seu nome. Eu o conheço bem, pois perdi gente importante da família por causa desta coisa. Mas como o post não é para falar de mim e sim de música, é inevitável não lamentar pelo linfoma que sofre Tony Iommi segundo foi revelado nesta segunda-feira.

Para quem nasceu em outro planeta ou simplesmente acha que Heavy Metal é coisa do demônio, que bom mesmo é ouvir os ‘Rebolations’ da vida, trata-se de um dos maiores gênios da guitarra sem precisar fazer nenhuma macaquice para isso, responsável pela criação do Black Sabbath, o pai Heavy Metal.

Quando jovem, Iommi decepou a ponta dos dedos anelar e médio na mão direita trabalhando em uma metalúrgica e, ao contrário do que recomendavam os médicos, ele voltou a tocar. Como é canhoto, a mão direita de Tony é a que marca os acordes, o que tornava o caso bem mais complicado. Para voltar, ele precisou baixar a afinação da guitarra e assim nasceu o som pesado do Metal.

Quando digo que Iommi é um gênio sem fazer solos circenses é justamente a maior qualidade dele. Infelizmente, hoje em dia tem muito guitarrista jovem que acha que o importante para ser bom é ser o mais rápido possível e fazer mil acordes por segundo, implorar a atenção do público. Sim, eu gosto de Yngwie Malmsteen e outros que seguem tal linha, mas acho muito melhor quem sabe fazer o simples bem feito e isso são poucos os que conseguem.

O momento para a divulgação da doença de Iommi não poderia ser pior, uma vez que há quase dois meses ele esteve ao lado de Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne em Los Angeles para anunciar o retorno do Black Sabbath com novo álbum e turnê mundial.

Por mais que todos esperem pela cura de Tony Iommi, o que parece bem possível já que segundo o que foi noticiado o estágio ainda não é avançado, o fato de Ronnie James Dio, o ex-vocalista do Black Sabbath, ter morrido há menos de dois anos também em decorrência de um câncer, justamente no momento em que estava de volta à formação do Black Sabbath que gravou o Heaven and Hell, nome dado à banda naquele momento. Foi um novo álbum “The Devil You Know”, seguido de uma nova turnê.

Nos resta torcer para que a maldita doença não faça de Iommi mais uma vítima, assim como já fez Ronnie James Dio, Chuck Shuldiner, Jim Capaldi, Joey Ramone, Frank Zappa e George Harrison, entre outros como meu ex-vizinho Itamar Assumpção. Escuto muita gente pedir pela cura para a Aids, mas acho que a recuperação do câncer deveria vir primeiro. É muita crueldade.