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O que há de comum em Bruce Dickinson e Caetano Veloso?

Um ajudou a dar cara à Tropicália e marcou época como músico e líder de uma geração, o outro pegou carona em um estilo musical em ascensão e ‘herdou’ vaga naquela que se tornaria uma das maiores bandas do gênero. Curiosamente o dia 7 de agosto nos reserva o aniversário de 70 anos de Caetano Veloso e o de 54 anos de Bruce Dickinson, o vocalista do Iron Maiden.

Caetano Veloso conta com uma vasta discografia, já cantou em diversos gêneros musicais e se deixou ser levado conforme a correnteza. O resultado disso é um sujeito com criações que vão de geniais a tolas. Sua principal qualidade é justamente o fato de conseguir criar e compôr material correspondente a diversas épocas e chegar ao ponto de ser comparado a grandes compositores internacionais. O maior defeito é se deixar levar por comparações e se portar como ‘a estrela’.

Bruce Dickinson é aquele cara que esteve no lugar certo e na hora certa. Era o vocalista do Samson quando Paul Di’Anno pedia para perder o emprego de vocalista do Iron Maiden. Ao entrar para a Donzela, Dickinson (antes chamado ‘Bruce Bruce’) ajudou a mudar o direcionamento da banda e hoje seria impossível imaginar as composições de Steve Harris com outra voz, Blaze Bayley está aí para comprovar. Tentou ser o substituto de Bruce Dickinson e paga caro por isso até os dias de hoje.

Agora, como é possível colocar Bruce Dickinson no mesmo texto que Caetano Veloso sem falar apenas na coincidente data de nascimento em 7 de agosto? A versatilidade. Se Caetano Veloso foi do Tropicalismo à MPB, passou pelo Pop, pela Bossa Nova e até pelo Rock, Bruce Dickinson acumula as funções de apresentador de programa de rádio na BBC, piloto de avião comercial, tem uma bem sucedida carreira solo, o Iron Maiden, já dirigiu filmes, escreveu livros, é formado em história e já disputou competições profissionais de esgrima no passado.

O diferencial de Bruce Dickinson? Todo o seu acúmulo de funções não muda seu jeito de ser. Já entrevistei o cantor inglês e pude constatar a simpatia do sujeito mesmo sendo ‘incomodado’ em seu dia de folga por um jornalista brasileiro com inglês meia-boca que queria falar sobre esportes.

Mas vamos ao que interessa: Os dois já gravaram covers! O mais controverso de Caetano Veloso foi no começo dos anos 2000, quando ele lançou um álbum apenas com covers e escolheu como um dos temas “Come As You Are”, do Nirvana. É curioso como a música seria considerada interessante se fosse gravada neste formato por um músico estrangeiro, mas com Caetano Veloso e seus trejeitos virou alvo de críticas por todas as partes.

Já Bruce Dickinson gravou cover do Queen ao lado de Montserrat Caballé, cantou versões de Deep Purple, The Who, Black Sabbath, David Bowie, Jethro Tull, mas o caso mais interessante é de uma música de autoria própria.

Em 1997, Bruce Dickinson estava fora do Iron Maiden e lançou o álbum Accident of Birth, que continha entre suas músicas a balada “Man of Sorrows”. Eis que o vocalista apelidado ‘The Air Raid Siren’ criou uma versão em espanhol chamada “Hombre Triste”. Vale conferir.

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O gênio mora ao lado

Geralmente vemos nossos ídolos como pessoas distantes. Músicos de respeito, gênios, estes são daquele tipo que sempre acreditamos que nunca chegaremos perto. Mas para mim isso foi bem diferente desde cedo. Tive a oportunidade de entrevistar um dos meus maiores ídolos na música, o vocalista Bruce Dickinson, mas vivi muito mais próximo de outro músico.

Pois de Tietê, terra do tenista Thomaz Bellucci e do vice-presidente Michel Temer, veio a São Paulo uma figura que considero de muita importância. Negão, cabeludo, andarilho, simpático e gênio. Este era Itamar Assumpção, uma figura que quando eu era criança pouco entendia o motivo de todo aquele jeitão esquisito e aqueles óculos exóticos.

Mas em minha adolescência eu já sabia quem era o Itamar e um dos meus sonhos era ser músico, então tornava-se muito interessante procurar saber que tipo de música fazia aquele sujeito. Demorei muito para assimilar, pois na época eu ouvia muito pouca coisa, resumindo meus ouvidos a Led Zeppelin, The Doors, Black Sabbath, Iron Maiden, Metallica e Ramones, com algumas coisas a mais.

Itamar Assumpção cantava, tocava, compunha, e até hoje é reverenciado por muitos músicos que o público tornou famosos. Mas Itamar não ganhou fama, teve raras aparições na TV Cultura e uma ou outra na Globo, jamais deixou aquela casa sem luxo na Penha onde por muito tempo eu aproveitei o portão de sua garagem como um gol.

Quando eu andava à noite, não era estranho ver o tiozinho caminhando durante a noite como quem estivesse fazendo um exercício matinal. Era o típico sujeito que trocava o dia pela noite, uma das melhores experiências para quem não tem aquela responsabilidade chata de acordar cedo todos os dias.

Itamar Assumpção morreu vítima de câncer no intestino em 2003, quando eu já estava aproximadamente um ano vivendo na quente Caraguatatuba, no litoral paulista. Com um grande legado musical, teve suas composições gravadas por Cássia Eller, Luiza Possi, Ney Matogrosso, Rita Lee, Tom Zé e Zélia Duncan, entre outros. E outro legado é o trabalho de sua filha Anelis Assumpção, uma ótima cantora que eu via desde sua juventude.

É por ver artistas como Itamar Assumpção criarem belas obras e lucrando muito pouco por isso que eu fico puto da vida quando ouço aqueles Funks em que os sujeitos não sabem o que é uma pauta musical, nem um simples acorde, utilizam apenas samplers de músicas que fizeram sucesso, botam um lixo de letra por cima e ficam ricos. Sim, meus caros, a música muitas vezes é injusta. Ou seria o nosso público ignorante e injusto?