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‘Deselegância’ de Edu Falaschi e a UTI do Metal brasileiro

No último domingo foi realizado pela primeira vez um show para celebrar o Dia do Heavy Metal Brasileiro. Idealizada por Thiago Bianchi, produtor musical e vocalista da banda Shaman, a data não teve muita divulgação, exceto por anúncios discretos em veículos especializados.

Logo, um evento que reunia bandas importantes no cenário atual como Almah, Hangar e Shaman foi um verdadeiro fracasso de público, o que causa preocupação para quem acompanha e valoriza o cenário musical.

Marcado por fazer declarações fortes recentemente quando fala sobre o Angra, o Almah e o público atual do Metal, o vocalista Edu Falaschi não segurou a frustração e soltou o verbo em um desabafo no qual apelou em alguns termos um tanto quanto impróprios, tendo razão em muita coisa, principalmente em relação ao fato de o Heavy Metal brasileiro respirar por aparelhos.

A oferta de shows internacionais no Brasil cresceu nos últimos anos e bandas como o Iron Maiden batem cartão em terras tupiniquins. Os shows são sempre lotados. A concorrência ficou desleal para as bandas nacionais, que já não faturam nada com vendas de discos, já que seus produtos não estão nas grandes lojas e o público atual é mais preguiçoso e mão de vaca: Faz download de tudo e não vai atrás para comprar nenhum disco e quando o gasta seu dinheiro é com uma banda estrangeira.

Os problemas não são exclusividade do Heavy Metal, mas de vários outros gêneros. Edu Falaschi não é o primeiro e nem será o último a chiar. Aliás, já ouvi os caras do Dr. Sin reclamarem há uns três ou quatro anos, assim como li os manifestos de Thiago Bianchi.

Por outro lado, lembro de ter lido há uns cinco ou seis anos o cantor Andre Matos dizer que a pirataria não assustava tanto, já que o público do Heavy Metal era fiel e comprava os discos, além de comparecer aos shows. Que mesmo baixando os arquivos de MP3, comprava o CD e o DVD para guardá-los como item de coleção. Sim, a coisa mudou. Aquele público que se dizia fiel, não tem mais fidelidade alguma, exceto com bandas com o Iron Maiden, que conseguiu disco de ouro no Brasil com o esquisito álbum Final Frontier, por exemplo.

A mídia especializada também piorou muito. Tente ler as entrevistas repetitivas e as resenhas chatas e manjadas nas páginas da revista Roadie Crew. A tarefa é dura. E aguentar então aquele perfil de programa infantil incorporado pela galera do Stay Heavy, programa especializado de TV. O Whiplash, que é o maior site de Metal do país, passou a apelar em suas manchetes, além de abrir espaço a outros gêneros. Enfim, é tudo pela vendagem, pela grana, como qualquer veículo de imprensa que necessita de margem de lucro.

O problema que vejo é simples: os meios do Heavy Metal estão seguindo um padrão pop para atrair a outros públicos. Enquanto isso, não se consegue emplacar o material feito no Brasil em eventos grandes realizados por aqui, e não são poucos. No Rock in Rio o espaço para o Metal brasileiro foi bem pequeno e amador, no festival SWU não há Heavy Metal nacional e o espaço na mídia em geral inexiste para quem não é Metallica, Iron Maiden e etc.

O que existe hoje na mídia em geral é o culto à celebridade e o Heavy Metal brasileiro passa longe de ser celebridade, exceto por um Andreas Kisser aqui, um Kiko Loureiro ali. Claro que a preguiça de um público “acostumado a leite com pêra” (“mimado”, para quem não entendeu o termo anterior) atrapalha e aí faz todo sentido a frase mais interessante de Edu Falaschi no final da entrevista que virou pronunciamento: “Fiquem aí com o Restart”.

Para quem não quer lembrar no futuro que o Rock bem feito no Brasil morreu para dar espaço a Restarts e NXZeros da vida, deixo abaixo uma lista com coisa muito boa que é ou foi feita por aqui.

Akashic, Almah, Angra, Astafix, Carro Bomba, Dr. Sin, Hangar, Harppia, Korzus, Krisiun, Mindflow, Musica Diablo, Nando Fernandes, Scelerata, Sepultura, Shadowside, Shaman, Stormental, Symbols, Torture Squad, Tribuzy, Tuatha de Danann, Viper e Vulcano.

Ah, então o público tem que ignorar as bandas estrangeiras? Claro que não! Mas abandonar o material produzido no Brasil é lamentável! Acha que não, então confira abaixo o que temos:

Hangar

Torture Squad

Krisiun

Stormental

Almah

Shadowside

Carro Bomba

Korzus

Raios!

A criatividade na classificação que é dada a cada nova banda de Heavy Metal me espanta. Nunca fui muito fã de termos “Rock Melódico”, “Black Thrash Death Melodic Metal” e “Viking Power True Fodão Metal”. Afinal, não é tudo Heavy Metal? E o Rock melódico, não seria na verdade um Pop menos polido?

A verdade é que há termos úteis para a diferenciação de bandas. O Thrash Metal do Metallica nunca vai ser o Power Metal do Helloween, que também passa longe do Progressive Metal do Dream Theater.

Mas aí em um jornalista especializado ou músico de alguma banda para me falar que uma banda é Doom e não Death Metal, ou então Viking. Ou então dizem que o Megadeth não é Thrash como o Metallica, mas Speed Metal.

O que acho mais insuportável mesmo é quando surge uma nova banda e os integrantes misturam uma série de nomes para definir o som que fazem, e aí fica fácil saber que a música do tal grupo é chata pra cacete.

Como já criaram tantos nomes, decidi trazer aqui uma versão (sim, eu gosto mesmo é de covers) da música “O Pastor”, do Madredeus, grupo português que mistura Fado com Folk e New Wave.

O responsável pela versão é Rafael Bittencourt, guitarrista do Angra, no seu Bittencourt Project. Aliás, é impressionante como tudo o que os integrantes da banda fazem ultimamente em paralelo é legal, exceto o que fazem no próprio Angra.

Rafael Bittencourt lançou seu disco solo há uns 4 anos, se apresentando como um bom cantor e nesta versão em especial, colocou um peso que se encaixou adequadamente à música “O Pastor”. E aí eu tenho de perguntar: Seria a criação de um novo sub-gênero, o Fado Metal? Vale conferir!

Ah, quer conferir como é a versão original do Madredeus? Então toma!