Uma das mais belas vozes do Rock se cala

Acordar cedo não me agrada, nunca agradou. Ainda mais quando não é programado, quando estou desempregado e não preciso despertar apressado.

Quando isso acontece, você olha para o lado, pega o celular para ver as últimas notícias e vem aquele soco no estômago. Já aconteceu algumas vezes, o de hoje foi doloroso: Morreu Chris Cornell.

 

Cornell do Soundgarden, do Audioslave, do Temple of the Dog. Simplesmente Cornell. O cara bonito, talentoso, com personalidade, uma das mais belas e potentes vozes do Rock. Para este blogueiro, um dos artistas mais completos do Rock e o melhor vocal de toda aquela turma de Seattle. Talvez um fã de Eddie Vedder pode rebater, entenderei, pois o carisma do frontman do Pearl Jam o coloca num pedestal que muitas vezes reduz a percepção à voz.

Numa semana onde se lembram os 7 anos da partida de Ronnie James Dio e os 30 do suicídio de Ian Curtis, um Chris Cornell sai de mais um show apresentado com maestria e se enforca em um hotel em Detroit aos 52 anos, jovem e em fase produtiva. No Soundgarden, vinha em turnê pelos Estados Unidos desde abril deste ano.

Em sua carreira solo – muitas vezes esquecida quando a turma lembra do trabalho nas bandas da qual fez parte -, vinha de um álbum lançado em 2015 (Higher Truth), além de participação em trilhas sonoras. Em abril deste ano o último single lançado em vida foi justamente uma trilha sonora chamada “The Promise”, lançado em abril deste ano com o filme homônimo.

Se você não conhece a carreira de Cornell, recomendo que ouça os álbuns Badmotorfinger (1991) e Superunknown (1994), com o Soundgarden, Temple of The Dog (1991), com o Temple of The Dog, Audioslave (2002), do Audioslave, e Euphoria Morning (1999), da carreira solo do cantor. Nos citados você vai reconhecê-lo como grande compositor e cantor.

Quando escrevo que Cornell foi um artista completo, recomendo que ouça ou assista seus shows, seus improvisos e a criatividade. Na última passagem pelo Brasil, em dezembro de 2016, apresentou na Ópera de Arame, em Curitiba, por exemplo, uma versão de “One”, do U2, cantando a letra de “One”, do Metallica.

Também apresentava uma bonita versão de “Billie Jean”, do Michael Jackson, que foi registrada no álbum solo Carry On (2007), além de várias outras versões de Beatles, Bob Dylan, Bob Marley e de seus próprios sucessos com Soundgarden, Temple of the Dog e Audioslave.

O Audioslave, aliás, era a banda que tinha tudo para ser gigante por um longo período, mas não deu certo. Era minha trilha sonora diária nos anos 2000, reunindo Cornell com Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk (guitarrista, baixista e baterista do Rage Against the Machine – atualmente membros do Prophets of the Rage, que tocou no Brasil no último fim de semana).

A banda que acabou em 2007, voltou a “se encontrar” em janeiro deste ano em uma apresentação de Cornell com o Prophets of the Rage, em Los Angeles, com a execução de “Show me How to Live”, “Like a Stone” e “Cochise”, esta com um vocal alto que lembra um pouco a zeppeliana “Whole Lotta Love”, também gravada pelo cantor americano em uma parceria com o guitarrista Carlos Santana.

Homenagens vieram e virão de muitos artistas nos próximos dias, seja naquelas mensagens de redes sociais ou até em shows, como fez o Megadeth, no Japão, ao apresentar “Outshined” (vídeo abaixo).

 

Já li, ouvi e vi muita coisa sobre a morte de Chris Cornell, até sobre a infeliz coincidência de ele ter cantado durante a execução de “Slaves & Bullldozers” o refrão de “In My Time of Dying”, coisa que ele já havia feito em outros shows da turnê com o Soundgarden. Bobagem. Ninguém vai conseguir agora ler tardiamente a mente dele e procurar motivos para um suicídio. Não tem volta, nem solução.

Cornell teria mais a apresentar, mais shows a fazer, novas músicas a cantar, mas por algum motivo optou por encerrar tudo. Me resta agradecer pelo que fez e aproveitar para prestigiar o legado.

Chris Cornell em um dos últimos shows com o Soundgarden
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Se reinventando com o passado

Seguindo uma linha um tanto quanto parecida com a executada pelo AC/DC, o Krokus é ao lado do Gotthard uma das principais bandas suíças de Rock e já passou por diversas fases, sendo a mais bem sucedida na década de 80, quando se meteu com discos entre os 50 mais vendidos de Estados Unidos e Reino Unido, resultado alcançado com álbuns como “Hardware” (1981), “One Vice at a Time” (1982), “Headhunter” (1983), “The Blitz” (1984), que trouxe um cover bem mais ou menos da música “Ballroom Blitz”, do Sweet, e “Change of Address” (1986).

Mas como boa parte do que fez sucesso no Hard Rock dos anos 80, a fonte secou. A partir dos anos 90 foram idas e vidas, mudanças de formação e o sucesso só foi alcançado novamente em seu próprio território nos anos 2000.

Não que a música fosse ruim, mas aquela história de gravar ‘todo ano o mesmo disco’ não funciona com toda banda. Os álbuns dos anos 2000, “Rock the Block” (2004) e “Hellraiser” (2006) são bons, trazem uma pegada legal, que sempre te fazem lembrar daquela já citada banda australiana.

Em 2010, o álbum “Hoodoo” trouxe uma versão de “Born to be Wild”, do Seppenwolf, uma das músicas mais gravadas em covers em toda a história, mas o resultado foi bem legal e no disco (essa expressão ainda existe?) seguinte, “Dirty Dynamite” (2013), os caras gravaram “Help!”, dos Beatles, que nem de longe lembra a versão original e isso é uma coisa animadora, gosto quando os caras ‘desrespeitam’ mesmo.

O uso dos covers nos discos mais recentes traçaram o caminho até “Big Rocks”, lançado em janeiro de 2017, que nos traz 12 covers e uma regravação de um dos sucessos da banda. O álbum só tem petardos, uma porrada atrás da outra iniciando com a introdução do riff de “N.I.B”, do Black Sabbath, seguida de “Tie Your Mother Down”, do Queen, “My Generation”, do The Who, “Whild Thing”, do The Troggs, e “The House of the Rising Sun”, do The Animals, numa versão bem encorpada e a rasgada voz de Marc Storace, combinação excelente.

Outras revisitadas são “Gimme Some Lovin’”, do Spencer Davis Group, “Whole Lotta Love”, do Led Zeppelin, esta sem trazer nada de especial em relação aos milhares de covers já gravados. É bem executada, mas tem aquela coisa, né? Várias bandas já a executaram bem.

“Summertime Blues”, de Eddie Cochran, é mais uma que teve diversas gravações diferentes, mas neste caso a versão do Krokus ficou bem diferente das demais e traz do Rockabilly para o ‘Hardão’ mesmo, uma roupagem bem diferente. “Born to be Wild” é um pouco diferente da já gravada anteriormente pela banda, mas prefiro a primeira.

A versão para “Quinn the Eskimo”, de Bob Dylan, é uma das mais interessantes do disco, ao lado de “Jumpin’ Jack Flash”, último cover do álbum, já que a faixa final é uma regravação de “Back Seat Rock n’ Roll”, do próprio Krokus.

E como destaque a própria banda escolheu “Rockin’ in the Free World”, de Neil Young, para ganhar um vídeoclipe. A versão ficou muito boa e o vídeo traz imagens de um jovem carregando o mundo nas mãos sobre um skate enquanto passa por imagens de Adolf Hitler, Elvis Presley, Fidel Castro, Muhammad Ali, Donald Trump, o ataque às Torres Gêmeas, a Segunda Guerra Mundial, entre outras imagens e figuras históricas.

O clipe ficou bem legal, explorou assuntos históricos e do momento atual, em um período no qual são poucos os que fazem vídeos interessantes, e a música casou bem com o vídeo, assim como  com a pegada imposta pela banda, o riff é daqueles que ficam na cabeça durante dias.

Enfim, muitas bandas fazem discos com covers, você já deve ter ouvido vários bons e ruins, mas “Big Rocks”, do Krokus, é daqueles que você não se arrepende de repetir, repetir e repetir, mesmo a banda tendo esse histórico repetitivo.

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#ForçaChape

 Já perdi muita gente querida. Amigos, familiares, conhecidos. Mas por maior que seja o amor por cada um, o sentimento agora é muito mais profundo do que em todas as ocasiões anteriores. Hoje foi o dia mais triste da minha carreira, da minha vida.
Como acreditar que domingo à tarde eu estava no Allianz Parque comemorando o título do Palmeiras e vendo o último jogo da Chapecoense prévio a uma tragédia? Adoro a história do time, torci como se fosse meu time na semifinal contra o San Lorenzo. E hoje logo que acordei vi a notícia. Custei a acreditar.
Caio Junior era o técnico do Palmeiras quando eu estava começando no jornalismo esportivo. Cobri treinos do clube pela “TVzinha” do Lance!. Vi ele e todos aqueles jogadores em campo no domingo. Como assim? Aí começaram a chegar as listas de passageiros e lá estava o André Podiacki.
Sempre brinquei com o Podiacki que ele era o repórter oficial do WTA de Floripa. Nos últimos dois anos era o único além da assessoria que passava o dia no torneio, as coletivas de imprensa eram exclusivas do Podiacki. Teliana, Gabriela, Paula, Monica Puig, Mattek-Sands e tantas outras foram recepcionadas por ele na sala de imprensa. A romena Ana Bogdan já sorria quando o via ao chegar para a “coletiva exclusiva”, que acabava virando um bate-papo depois de pausados os gravadores, o dele, o meu e o do Rafael Hertel.
Na Davis de BH, o Podi era o único repórter que ia comer com nossa equipe. Virou o “Pão de Alho” em falha auditiva do Dennis Forster. Quando vi seu nome, custei a aceitar, mas nosso colega de trabalho e nosso amigo infelizmente não sobreviveu.
Ari Junior foi o cinegrafista, ou melhor, o artista que fez a matéria exibida esse ano no Jornal Nacional com Bruno e Marcelo antes da Olimpíada. Um grão de areia perto de todos os seus registros.
Em uma tragédia, não tem um morto mais importante que o outro. São todos iguais. E eu sinto por todos. Pelo Djalma, cinegrafista que conheci em Floripa, pelo Victorino, pelo Deva, que eu ouvia sempre na época de CBN, todos os outros profissionais, os jogadores e o assessor de imprensa Gilberto Pace Thomaz, que conseguia aliar o amor pelo clube com o trabalho e viajava com o time, o mesmo que eu senti todos esses últimos quatro anos .
Desde que passei a trabalhar na CBT, minha rotina muitas vezes foi a de viajar para tudo o que é canto, seja para a assessoria de um torneio ou para acompanhar a equipe brasileira na Copa Davis. Fico sem ver meus pais, meus irmãos, meus amigos e familiares durante muito tempo. De um voo a outro.
A gente que pega tantos voos, nunca quer acreditar que possa acontecer uma tragédia assim, seja conosco, com pessoas que conhecemos ou não conhecemos. Tal qual o futebol, o tênis é feito de aeroportos, hotéis, voos… No último fim de semana eu tentava convencer a minha sogra a viajar de avião, para não ter medo pois é seguro. Três dias depois, vem isso.
Já desliguei TV, tentei ver outras coisas, mas não sai da minha cabeça. Quem me conhece, sabe que não sou lá um cara muito religioso. Muitos acham que sou ateu, inclusive. Mas hoje eu faço minhas orações pelas vítimas e pelas famílias. E sou apenas mais um que choro.

Em tempos de nostalgia, Helloween se reúne com Kiske

 

Em um momento de música consumida em plataformas digitais, o CD perdendo vendas, o vinil aumentando vendas (quem diria!), agora chegou a vez de as bandas se reunirem, em boa parte dos casos não exatamente por amizade, mas pensando nos fãs e, mais ainda, o preço que os fãs estão dispostos a pagar para ver o que têm saudade ou nem viram ao vivo em alguns casos.

Aqui no Brasil está aí para provar o Guns N’ Roses em turnê com Axl Rose, Slash e Duff McKagan juntos (em Buenos Aires até o Steven Adler subiu ao palco). E daqui pouco menos de um ano estará reunida em São Paulo uma formação clássica do Helloween, uma das grandes notícias do ano musical.

O anúncio da nova turnê foi feito pelo vídeo apresentado abaixo, postado no site oficial e nas mídias sociais da banda alemã. Será a Pumpkins United World Tour 2017/2018.

Depois de 24 anos, Michael Kiske se juntará à banda que o consagrou e que ajudou a atingir o ápice com os excelentes álbuns Keeper of the Seven Keys Part I & Part II, trazendo junto Kai Hansen, voz original da banda e guitarrista até a saída após os “Guardadores das Sete Chaves”.

Os demais integrantes nesta tour serão o guitarrista Michael Weikath e o baixista Markus Grosskopf, digamos, os “donos” do Helloween, únicos integrantes que estão desde a primeira formação, além dos atuais membros: o vocalista Andy Deris, substituto de Kiske desde 1994, o guitarrista Sascha Gerstner, que assumiu a posição após a saída de Roland Grapow em 2002 e o baterista Daniel Loble, que está na banda desde 2005, lembrando que o batera original da banda, Ingo Schwichtenberg, cometeu suicídio em 1995.

A notícia estava sendo especulada há algumas semanas, mas o autor deste blog sempre teve um pé atrás em se tratando de Kiske e Helloween, já que foram anos de declarações e demonstrações de que o vocalista não estava muito disposto a se reunir aos antigos companheiros. Kiske e Hansen já estavam tocando juntos desde 2011 no Unisonic, além de participações especiais em turnês do Gamma Ray.

Em meio a tantas reuniões de outras bandas, os fãs já aguardavam ansiosamente há alguns anos. O Helloween precisava, os últimos discos decepcionaram bastante na qualidade Enfim, a banda estava chata e precisava de um atrativo para chamar novamente a atenção dos fãs.

helloween-br-2017Kiske durante um bom tempo ficou sumido. Depois era arroz de festa como convidado de projetos especiais, como o Avantasia. Colocou em prática alguns bons, outros bem esquisitos. A situação começou a melhorar no final dos anos 2000, quando voltou a pegar gosto pelo Rock e foi aumentando a dose de potência até o Unisonic (2012), a coisa mais próxima do Helloween que o cantor de 48 anos fez desde 1993, com dois bons discos.

Kai Hansen já havia se aproximado do Helloween algumas vezes, inclusive com o Gamma Ray fazendo turnê em conjunto com sua banda de origem em 2007/2008, a Hellish Rock Tour.

O interessante da nova turnê é que a banda vai para o palco com três guitarras com Sascha Gerstner, assim como o Iron Maiden fez mantendo Janick Gers na época do retorno de Adrian Smith com Bruce Dickinson. E a volta de Kiske não significa a saída de Deris, ou seja, haja palco para todo mundo.

O público paulistano, que já recebeu a gravação de um DVD da banda, será novamente agraciado, pois o primeiro show confirmado da nova tour já está marcado para o Espaço das Américas, na Barra Funda, em São Paulo, no dia 28 de outubro, com venda de ingressos a partir desta quarta-feira, dia 16 de novembro.

Para quem tem passado por uma maratona de reuniões em 2016, com shows do Guns N’ Roses e da última turnê do Black Sabbath, nada mal ter garantida para o próximo ano mais uma grande banda apresentando uma formação clássica.

A reunião é boa para Michael Kiske e Kai Hansen, é ótima para o Helloween e alguém belisque os fãs da banda para que eles acreditem. Vai acontecer mesmo!

Amor, angústia e decepção. Meu sonho ainda não acabou

Quero voltar aqui no tempo contando uma historinha de uma criança que adorava esportes. O primeiro que aprendeu a gostar foi o futebol, que despertou uma paixão desde cedo, a ponto de se tornar torcedor de um time que não ganhava um título desde a adolescência do pai, que nunca torceu para o mesmo time do filho, diga-se.

Em 1992, aos 5 anos, esta criança descobriu que existiam outros esportes. Ao ver na TV os Jogos de Barcelona, sem nem saber ainda que era gente, passou a gostar de vôlei, tentava entender o tênis e não perdia as provas de natação e jogos de basquete. A única coisa que ainda era difícil compreender: por que o seu time de futebol não disputava aquele evento? Pois a criança foi avisada pelo irmão mais velho que era impossível um jogo entre seu time e o Brasil durante a Olimpíada.

Quatro anos depois, já começava a entender um pouquinho mais do que se tratava aquele evento em Atlanta. Mais esportes passavam pela lista de preferidos e o gosto pelo tênis nascia ao ver que um brasileiro atingia as semifinais. Aquele brasileiro era um dos primeiros ídolos entre os não-jogadores de futebol desta criança. Aos 9 anos, lia o caderno de esportes do Estadão todos os sábados e domingos para saber os resultados esportivos e ter assunto para poder conversar com os mais velhos.

Interessante como o gosto e o conhecimento podem iludir. Muitos que conheceram esta criança imaginavam que ela seria atleta. Inclusive ela. Mas mesmo tentando, a aptidão esportiva nunca foi o forte. Virou um goleiro mais ou menos no futebol, um jogador de basquete que não sabia arremessar, um jogador de vôlei que não tinha a menor coordenação para levantar uma bola, um jogador de handebol que não acertava o gol. Natação? Era legal ver o irmão mais velho competindo, mas até hoje corre o risco de se afogar com 1,5 m de água. Tênis? As experiências não foram boas.

Mas nascia ali uma ligação forte com o esporte da mesma maneira. Anotar os resultados, calcular quadros de medalhas e tabelas de pontuação nos campeonatos de futebol numa época ainda sem acesso a internet ocuparam muitas vezes o tempo que poderia ter passado brincando como qualquer criança da mesma idade.

Em 2000, começava a briga com os pais para poder ficar acordado na madrugada. A refugada do Baloubet, a derrota de Guga para Kafelnikov, a eliminação da seleção do Luxemburgo para Camarões são cenas que até hoje estão na memória. O então já adolescente viu tudo ao vivo. A cada chance de um brasileiro quebrar o jejum de medalhas de ouro, lá estava o jovem acompanhando e começando a desconfiar que era um tremendo pé-frio. Pé este que havia fraturado há poucos meses, justamente no dia em que viu seu time perder uma final de Libertadores. A primeira derrota no estádio. A primeira privação de praticar esportes.

Veio Atenas no primeiro momento de conflito. Havia dois anos que não morava mais na capital, a condição financeira já não era a mesma. Não conseguia acompanhar tanto num momento em que a TV por assinatura era a que concentrava o maior número de transmissões. Mas conseguiu acompanhar ainda assim pelo Lance, jornal que descobriu em 1997, nas primeiras edições e jamais largou. E no dia em que prestou sua prova no ENEM, viu que um brasileiro liderava a maratona antes de entrar para realizar o exame. Após uma das redações mais inspiradas que já fez, por tratar de jornalismo, descobriu que um irlandês maluco agarrou o maratonista brasileiro no meio da prova (ah se fosse no Brasil!).

Uma coisa ficava clara naquele momento. O agora rapaz seria mesmo jornalista. Se inscreveu para três vestibulares na mesma profissão. Não tinha dúvida nenhuma, embora a própria família em algum momento tivesse. Veio a vida universitária, uma vida novamente em uma cidade grande, algumas decepções nas tentativas de conseguir emprego. Aquela ideia de que não conseguiria esporte, então… “bora tentar outra área do jornalismo, gosto de ler e escrever sobre tudo mesmo”… A dificuldade em conseguir trabalho trouxe a desistência do jornalismo.

Na cabeça estava tudo planejado: estudar música. Mas o rapaz havia se esquecido que fez inscrição em um programa de estágio daquele jornal que lia todos os dias e recebeu uma ligação para fazer prova no mesmo dia em que levaria a ficha querendo mudar de curso sem avisar a ninguém. O processo seletivo foi rápido, logo estava aprovado no lugar onde nunca pensou que poderia trabalhar.

A vaga era para o poliesportivo. “Para o futebol não tem, né?”. Até hoje agradece por não ter aquela vaga no futebol. Da redação, acompanhou pela primeira vez uma cobertura de grande evento nos Jogos Pan-Americanos. Foi o único de seu setor que não viajou ao Rio de Janeiro, mas sabia que não merecia, não tinha experiência e não faria uma boa cobertura. Esta viria anos depois. Pelo menos em sua cabeça…

Chegou Pequim e o editor avisou que naquele mês, pouparia o rapaz magrelo e cabeludo de perder aulas. Ele seria trocado durante a Olimpíada para o futebol. Mas recusou e não se importou em faltar na universidade. A experiência de cobrir o maior evento esportivo do mundo na redação era muito mais importante do que ouvir professores falando sobre as mesmas teorias ao longo daquele mês. Durante Pequim, conseguiu dar suporte ao pessoal que viajou para a cobertura in loco, fez matérias diferenciadas estando na redação e terminou aquele período das goiabas (café da manhã com suco de goiaba, geleia de goiaba e goiabinha) com a maior satisfação da vida. “Na próxima eu quero cobrir in loco…”

Poucas semanas depois dos Jogos da China, sentiu o seu maior medo. Enquanto apurava uma pauta ainda referente ao evento, recebeu uma ligação avisando que seu pai havia infartado. Perdeu noites e noites de sono. Nos meses seguintes, temia todos os dias perder o pai. Menos de um ano depois, perdeu o emprego devido à mudança na lei do estágio (deveria estar formado, mas alguns problemas citados anteriormente não permitiram). Enquanto estava desempregado, quase perdeu mesmo o pai. E enquanto quase pirava indo da universidade para o hospital e do hospital para a universidade, recebeu uma nova chance.

Nas primeiras semanas de UOL, acompanhou a decisão da sede dos Jogos de 2016. Torcia por Madri. Imaginava que seria a sua primeira e tinha medo de o Rio não ter condições de sediar o evento. Mas ganhou a cidade brasileira e então este rapaz já mais pesado começou a imaginar que poderia ser uma boa.

Durante sua passagem pelo portal, passou a fazer material de todos os esportes, inclusive futebol. Conheceu a cobertura de uma Copa do Mundo à distância e cada vez mais sonhava com Londres. Mas logo descobriu que também não seria a sua vez. Oras, então quando será? O descontentamento causou a saída do veículo e o então novo trabalho foi abraçado com a certeza de que estaria no Rio hoje.

Foram pouco mais de quatro anos preparando, fazendo eventos grandes, tocando salas de imprensa, acompanhando equipes e resultados. Deixando de dormir para seguir jogo no livescore do celular, brigando com a namorada (que virou esposa) por dar mais atenção ao trabalho do que a si próprio.

Não deu. Daquele primeiro contato se passaram 24 anos. E agora terá de esperar passar mais 4 ou mais 8 anos. Lembra aquela história de dedicação, estudo, conhecimento? Então, o agora adulto aprendeu que nem sempre o retorno é garantido. Já viu gente com mais conhecimento ser preterido e gente com bem menos ser preferido. Já viu muita coisa que preferia não ter visto.

Pouca coisa mudou no sonho daquela criança. Ele continua vivo. Aquela criança cresceu, envelheceu, engordou, deixou o cabelo crescer de novo e segue mudando a cada dia. Aprendendo a cada dia. Mas hoje percebe que sua garganta está mais desgastada, seu alimento causa refluxo. É difícil engolir. É difícil digerir. Mas é preciso.

Vários amiguinhos feitos ao longo deste caminho estão hoje no Rio de Janeiro para a cobertura, por diversos veículos de imprensa. E por estes, esta criança aqui tem orgulho, se emociona e deseja o melhor trabalho possível.

Que quem está tendo esta oportunidade aproveite, faça o seu melhor. Pois é exatamente isso o que esta criança grande gostaria de poder fazer neste momento.

Até o último dia

Um grande pedaço do Rock se foi nesta segunda-feira. Perdemos Lemmy Kilmister, o líder do Motorhead, uma verdadeira lenda da música mundial. Quando pensamos que o ano de 2015 já havia sido implacável, ele nos deu mais um duro golpe.

Há quatro dias, Lemmy chegou aos 70 anos já bastante debilitado. Nos últimos anos lutou contra os problemas de saúde e nos últimos dias descobriu um câncer agressivo. As dores o fizeram deixar o palco sem conseguir finalizar o setlist durante o ano. Há pouco mais de um mês, quem partiu foi o baterista Phil “Animal” Taylor. E agora chegou aquela notícia que surpreende mas nem tanto. Um dia triste.

Não é preciso escrever muito sobre a história construída por Lemmy, assim como sua forte personalidade. Que ele foi roadie de Jimmy Hendrix, que criou uma das maiores bandas da história, que foi um ícone do baixo… Se você que está lendo este texto não sabe quem foi Ian Fraser “Lemmy” Kilmister, esqueça. Vá estudar, saia um pouquinho do Facebook, do Twitter, do celular e deste mundo fútil que o cerca. A história do rock se confunde com a de Lemmy.

Mas independentemente da história que criou, o legado que deixou ao Rock, Lemmy praticamente cumpriu o seu desejo de morrer na atividade. Seu último show com o Motorhead foi no dia 11 de dezembro, em Berlim, na Alemanha. E lá estavam clássicos como “Ace of Spades”, “Orgasmatron”, “Overkill”… Era a turnê de comemoração dos 40 anos da banda, que fechou seu ciclo em estúdio lançando este ano o álbum “Bad Magic”, com a ótima “Victory or Die” abrindo e o cover de “Sympathy for The Devil” encerrando o disco.

Do início ao fim da carreira, o Motorhead jamais se privou de pesar a mão em seus discos e não seria diferente nos últimos lançamentos, com Aftershock (2013) e Bad Magic (2015). Mas vem de “The World is Yours” a última música que me marcou na voz de Lemmy: “Rock And Roll Music”.

Os versos “Rock N Roll Music is the true religion/Never let you down you can dance to the rhythm/(…) Rock N Roll even gonna set you free/Make the lame walk and the blind to see/ Gonna take you back to to where you wanna be/Do it till the day I die”.

Lemmy ajudou a espalhar sua religião até o dia em que morreu e isto é o suficiente para que seja respeitado eternamente.

Obrigado por tudo, Lemmy.

Descanse em Paz!

Por trás do riso

Robin Williams morreu aos 63 anos nesta segunda-feira ao que consta vítima de si mesmo, ou da doença que mais mata hoje em dia: a depressão. Triste saber que alguém que fez rir ou chorar a tantos, vivia um conflito consigo próprio. Não é um caso atípico, está se tornando cada vez mais típico. Há poucos dias Fausto Fanti, do Hermes e Renato, cometeu suicídio quando vivia um momento depressivo.

E isso traz a tona a tristeza contida por muitos quando estão esbanjando saúde e alegria do corpo para fora, com a câmera ligada, com o microfone ligado. Em off, sofrem.

Este é um blog sobre música e não sobre morte. E é pela música que escrevo sobre Robin Williams. Afinal, como um grande ator, ele era um excelente intérprete e marcou as vidas de muitos, como eu, você que se interessou em ler sobre ele e muitos músicos. E ele teve o seu lado musical.

Ele também teve seus deslizes. Anos atrás, uma piada de péssimo gosto sobre a perda de Chicago para o Rio na candidatura dos Jogos Olímpicos causou irritação de muitos brasileiros. Mas eu prefiro não avaliar um craque pelo pior jogo e sim pelos bons, que foram muitos. A lista de grandes interpretações é imensa. A de boas piadas também. As ruins, temos bastante feitas aqui por brasileiros sobre o próprio país e sobre os outros também.

“Bom Dia, Vietnã”, “Patch Adams”, “Alladin”, “Gênio Indomável”, “O Homem Bicentenário”, “O Pescador de Ilusões”, “Inteligência Artificial”, “Uma Babá Quase Perfeita”, “Jumanji”, “A Gaiola das Loucas”… A lista é enorme como era o talento demonstrado nas interpretações. Como em ‘Come Together’, cantada com Bobby McFerrin, aquele de “Don’t Worry, Be Happy” (cujo videoclipe tem participação de Williams).

E como eu falo sobre os músicos, a repercussão entre eles da perda de Williams foi vasta. Desde Ozzy Osbourne (Black Sabbath), Paul Stanley (Kiss), Corey Taylor (Slipkot e Stone Sour), Yngwie Malmsteen, Lzzy Hale (Halestorm), Tom Morello (Rage Against the Machine), Dave Lombardo (ex-Slayer), Bumblefoot (Guns N’ Roses), Flea (Red Hot Chili Peppers), Glenn Hughes (ex-Deep Purple) e David Coverdale (Whitesnake), entre muitos outros. Todos lamentaram a perda.

Vício em drogas? Alcoolismo? O inimigo de Robin Williams atingiu alguns dos músicos citados (sugiro a leitura da autobiografia de Corey Taylor) e eles sobreviveram. Mas neste mundo louco em que vivemos, doença psicológica também mata. Infelizmente.

Informações, análise, curiosidades, bizarrices e mesmices da música por Rubens Lisboa

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