Amor, angústia e decepção. Meu sonho ainda não acabou

Quero voltar aqui no tempo contando uma historinha de uma criança que adorava esportes. O primeiro que aprendeu a gostar foi o futebol, que despertou uma paixão desde cedo, a ponto de se tornar torcedor de um time que não ganhava um título desde a adolescência do pai, que nunca torceu para o mesmo time do filho, diga-se.

Em 1992, aos 5 anos, esta criança descobriu que existiam outros esportes. Ao ver na TV os Jogos de Barcelona, sem nem saber ainda que era gente, passou a gostar de vôlei, tentava entender o tênis e não perdia as provas de natação e jogos de basquete. A única coisa que ainda era difícil compreender: por que o seu time de futebol não disputava aquele evento? Pois a criança foi avisada pelo irmão mais velho que era impossível um jogo entre seu time e o Brasil durante a Olimpíada.

Quatro anos depois, já começava a entender um pouquinho mais do que se tratava aquele evento em Atlanta. Mais esportes passavam pela lista de preferidos e o gosto pelo tênis nascia ao ver que um brasileiro atingia as semifinais. Aquele brasileiro era um dos primeiros ídolos entre os não-jogadores de futebol desta criança. Aos 9 anos, lia o caderno de esportes do Estadão todos os sábados e domingos para saber os resultados esportivos e ter assunto para poder conversar com os mais velhos.

Interessante como o gosto e o conhecimento podem iludir. Muitos que conheceram esta criança imaginavam que ela seria atleta. Inclusive ela. Mas mesmo tentando, a aptidão esportiva nunca foi o forte. Virou um goleiro mais ou menos no futebol, um jogador de basquete que não sabia arremessar, um jogador de vôlei que não tinha a menor coordenação para levantar uma bola, um jogador de handebol que não acertava o gol. Natação? Era legal ver o irmão mais velho competindo, mas até hoje corre o risco de se afogar com 1,5 m de água. Tênis? As experiências não foram boas.

Mas nascia ali uma ligação forte com o esporte da mesma maneira. Anotar os resultados, calcular quadros de medalhas e tabelas de pontuação nos campeonatos de futebol numa época ainda sem acesso a internet ocuparam muitas vezes o tempo que poderia ter passado brincando como qualquer criança da mesma idade.

Em 2000, começava a briga com os pais para poder ficar acordado na madrugada. A refugada do Baloubet, a derrota de Guga para Kafelnikov, a eliminação da seleção do Luxemburgo para Camarões são cenas que até hoje estão na memória. O então já adolescente viu tudo ao vivo. A cada chance de um brasileiro quebrar o jejum de medalhas de ouro, lá estava o jovem acompanhando e começando a desconfiar que era um tremendo pé-frio. Pé este que havia fraturado há poucos meses, justamente no dia em que viu seu time perder uma final de Libertadores. A primeira derrota no estádio. A primeira privação de praticar esportes.

Veio Atenas no primeiro momento de conflito. Havia dois anos que não morava mais na capital, a condição financeira já não era a mesma. Não conseguia acompanhar tanto num momento em que a TV por assinatura era a que concentrava o maior número de transmissões. Mas conseguiu acompanhar ainda assim pelo Lance, jornal que descobriu em 1997, nas primeiras edições e jamais largou. E no dia em que prestou sua prova no ENEM, viu que um brasileiro liderava a maratona antes de entrar para realizar o exame. Após uma das redações mais inspiradas que já fez, por tratar de jornalismo, descobriu que um irlandês maluco agarrou o maratonista brasileiro no meio da prova (ah se fosse no Brasil!).

Uma coisa ficava clara naquele momento. O agora rapaz seria mesmo jornalista. Se inscreveu para três vestibulares na mesma profissão. Não tinha dúvida nenhuma, embora a própria família em algum momento tivesse. Veio a vida universitária, uma vida novamente em uma cidade grande, algumas decepções nas tentativas de conseguir emprego. Aquela ideia de que não conseguiria esporte, então… “bora tentar outra área do jornalismo, gosto de ler e escrever sobre tudo mesmo”… A dificuldade em conseguir trabalho trouxe a desistência do jornalismo.

Na cabeça estava tudo planejado: estudar música. Mas o rapaz havia se esquecido que fez inscrição em um programa de estágio daquele jornal que lia todos os dias e recebeu uma ligação para fazer prova no mesmo dia em que levaria a ficha querendo mudar de curso sem avisar a ninguém. O processo seletivo foi rápido, logo estava aprovado no lugar onde nunca pensou que poderia trabalhar.

A vaga era para o poliesportivo. “Para o futebol não tem, né?”. Até hoje agradece por não ter aquela vaga no futebol. Da redação, acompanhou pela primeira vez uma cobertura de grande evento nos Jogos Pan-Americanos. Foi o único de seu setor que não viajou ao Rio de Janeiro, mas sabia que não merecia, não tinha experiência e não faria uma boa cobertura. Esta viria anos depois. Pelo menos em sua cabeça…

Chegou Pequim e o editor avisou que naquele mês, pouparia o rapaz magrelo e cabeludo de perder aulas. Ele seria trocado durante a Olimpíada para o futebol. Mas recusou e não se importou em faltar na universidade. A experiência de cobrir o maior evento esportivo do mundo na redação era muito mais importante do que ouvir professores falando sobre as mesmas teorias ao longo daquele mês. Durante Pequim, conseguiu dar suporte ao pessoal que viajou para a cobertura in loco, fez matérias diferenciadas estando na redação e terminou aquele período das goiabas (café da manhã com suco de goiaba, geleia de goiaba e goiabinha) com a maior satisfação da vida. “Na próxima eu quero cobrir in loco…”

Poucas semanas depois dos Jogos da China, sentiu o seu maior medo. Enquanto apurava uma pauta ainda referente ao evento, recebeu uma ligação avisando que seu pai havia infartado. Perdeu noites e noites de sono. Nos meses seguintes, temia todos os dias perder o pai. Menos de um ano depois, perdeu o emprego devido à mudança na lei do estágio (deveria estar formado, mas alguns problemas citados anteriormente não permitiram). Enquanto estava desempregado, quase perdeu mesmo o pai. E enquanto quase pirava indo da universidade para o hospital e do hospital para a universidade, recebeu uma nova chance.

Nas primeiras semanas de UOL, acompanhou a decisão da sede dos Jogos de 2016. Torcia por Madri. Imaginava que seria a sua primeira e tinha medo de o Rio não ter condições de sediar o evento. Mas ganhou a cidade brasileira e então este rapaz já mais pesado começou a imaginar que poderia ser uma boa.

Durante sua passagem pelo portal, passou a fazer material de todos os esportes, inclusive futebol. Conheceu a cobertura de uma Copa do Mundo à distância e cada vez mais sonhava com Londres. Mas logo descobriu que também não seria a sua vez. Oras, então quando será? O descontentamento causou a saída do veículo e o então novo trabalho foi abraçado com a certeza de que estaria no Rio hoje.

Foram pouco mais de quatro anos preparando, fazendo eventos grandes, tocando salas de imprensa, acompanhando equipes e resultados. Deixando de dormir para seguir jogo no livescore do celular, brigando com a namorada (que virou esposa) por dar mais atenção ao trabalho do que a si próprio.

Não deu. Daquele primeiro contato se passaram 24 anos. E agora terá de esperar passar mais 4 ou mais 8 anos. Lembra aquela história de dedicação, estudo, conhecimento? Então, o agora adulto aprendeu que nem sempre o retorno é garantido. Já viu gente com mais conhecimento ser preterido e gente com bem menos ser preferido. Já viu muita coisa que preferia não ter visto.

Pouca coisa mudou no sonho daquela criança. Ele continua vivo. Aquela criança cresceu, envelheceu, engordou, deixou o cabelo crescer de novo e segue mudando a cada dia. Aprendendo a cada dia. Mas hoje percebe que sua garganta está mais desgastada, seu alimento causa refluxo. É difícil engolir. É difícil digerir. Mas é preciso.

Vários amiguinhos feitos ao longo deste caminho estão hoje no Rio de Janeiro para a cobertura, por diversos veículos de imprensa. E por estes, esta criança aqui tem orgulho, se emociona e deseja o melhor trabalho possível.

Que quem está tendo esta oportunidade aproveite, faça o seu melhor. Pois é exatamente isso o que esta criança grande gostaria de poder fazer neste momento.

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